Quando o FC Porto tenta reinventar a pressão sobre os árbitros
André Villas-Boas não é Pinto da Costa, dizem por aí. O novo presidente dos dragões não manda pôr enxofre nos balneários adversários nem dá conselhos matrimoniais aos árbitros na véspera dos jogos grandes. Mas será que mudou mesmo alguma coisa no Dragão?
O relatório do árbitro Fábio Veríssimo sobre o jogo FC Porto-SC Braga conta uma história curiosa. Segundo o juiz, no intervalo encontrou no balneário da sua equipa um televisor que, estranhamente, não dava para desligar. E que passava, repetidamente, dois lances em que o FC Porto se sentia prejudicado.
A arte da pressão moderna
Um dos lances era o golo anulado a Froholdt na primeira parte do próprio jogo. O outro, mais rebuscado, mostrava uma jogada do Torneio da Pontinha entre Benfica e FC Porto. Ambos apitados por Veríssimo que, na visão portista, teve critérios diferentes em situações semelhantes.
Mas não chamem a isto pressão ou manipulação. Segundo a narrativa do FC Porto, isto é arte. Uma instalação artística inspirada em "Laranja Mecânica" de Stanley Kubrick. Só faltavam as molas nos olhos e o leite com drogas para completar a experiência imersiva.
"É o problema de muitos árbitros portugueses: passam a vida a olhar para o VAR, mas nunca viram um filme de Kubrick", ironiza quem conhece bem os bastidores do futebol português.
Mudança de métodos, não de objetivos
Villas-Boas apresenta-se como o rosto da modernização. Gestão transparente, contratações certeiras, discurso controlado. Mas quando se trata de influenciar os árbitros, parece que só mudaram os métodos.
Onde Pinto da Costa usava o enxofre e as conversas diretas, a nova direção aposta na tecnologia audiovisual. O resultado é o mesmo: tentar condicionar as decisões dos homens do apito.
Esta é a realidade do futebol português: clubes poderosos que continuam a procurar todas as formas de ganhar vantagem, mesmo que isso signifique pressionar quem deveria arbitrar com total independência.
O FC Porto quer mudar de imagem e apresentar-se como guardião moral do futebol nacional. Mas episódios como este mostram que, no fundo, algumas práticas continuam bem vivas. Apenas com uma roupagem mais sofisticada.