O veterano treinador inglês Neil Warnock defendeu este sábado, em declarações ao jornal britânico Mirror, que Michael Carrick nunca deveria ter deixado Bruno Fernandes de fora da equipa do Manchester United, mesmo depois de o capitão português o ter apontado como o principal culpado da derrota por 4-1 frente ao Como, na Liga dos Campeões, a 21 de outubro.
Segundo reportagem do Notícias ao Minuto, Warnock, de 77 anos, não poupou tampouco a direção do clube de Old Trafford, acusando-a de gastar fortunas em avançados e médios enquanto a defesa continua a ser um buraco sem solução à vista.
O que disse Neil Warnock sobre Bruno Fernandes
A polémica nasceu no dia 21 de outubro, quando Bruno Fernandes, depois da goleada sofrida no Stadio Giuseppe Sinigalla, apontou publicamente o dedo a Carrick, chamando-lhe o principal responsável pelo desaire na terceira jornada da fase de liga da competição europeia. A resposta do treinador foi imediata: no fim de semana seguinte, o internacional português foi sentado no banco frente ao Bournemouth e lá ficou durante os 90 minutos, numa nova derrota, desta vez por 3-0, em pleno Old Trafford.
Warnock, que já comandou Crystal Palace, Sheffield United e Leeds United, entre outros, disse ao Mirror que agiria de forma completamente diferente.
Se fosse eu, teria jogado com Fernandes, mesmo que ele me tivesse chacinado. Eu colocaria o braço à volta dele, porque quero vencer. Tenho de vencer, e ele é o melhor jogador, por isso colocaria o meu braço à volta dele e diria-lhe: ouve, cometeste um erro ao fazer aquilo, apontaste-me o dedo e tudo isso, mas quero que proves que estou errado, hoje, afirmou o treinador.
A reconciliação com os adeptos
O capitão acabou por ser perdoado e devolvido ao onze inicial no passado sábado, na deslocação a Stamford Bridge, onde jogou os 90 minutos de mais uma derrota, agora por 2-0 frente ao Chelsea, num dos jogos destacados da nona jornada da Premier League.
Foi ao fim desse encontro que Bruno Fernandes se dirigiu aos adeptos, visivelmente emocionado, num gesto que muitos interpretaram como uma reconciliação. Para quem conhece a realidade dos estádios ingleses, a cena não foi pequena: o capitão de um dos clubes mais ricos do mundo a pedir, com lágrimas nos olhos, que a bancada continue ao lado de uma equipa que não consegue vencer.
Millhões mal gastos, defesa inexistente
Mas a crítica mais dura de Warnock ficou para a direção do Manchester United. O treinador considerou-a responsável por anos de contratações que ficaram muito aquém do que se esperava, e fez contas simples.
Eles gastam dinheiro em avançados, gastam dinheiro em médios como nunca se viu, e ainda não têm uma defesa, atirou.
Eu não percebo como é que um clube de topo como aquele não consegue contratar defesas. Nem sequer têm um único lateral que consiga defender, acrescentou, antes de dar o eterno rival, o Arsenal, como exemplo a seguir.
Warnock apontou um caso concreto: o defesa Ezri Konsa. Eles poderiam ter contratado Konsa este ano. Por que é que não gastaram o dinheiro assim? Preferiram gastar 100 milhões de libras num médio, ainda que os defesas não consigam defender, questionou.
Para quem acompanha o futebol inglês de perto, a acusação tem um sabor amargo. O Manchester United gasta como poucos e ganha como ninguém espera. São centenas de milhões de libras despejados em nomes mediáticos, enquanto a base da equipa, a defesa, continua entregue a improvisos. No mundo real, fora dos relvados, chama-se a isto má gestão de recursos. No futebol, os adeptos pagam-a com bilhetes cada vez mais caros e com a paciência de quem vê o clube da sua vida afundar-se semana após semana.
Bournemouth e Brighton como contra-exemplo
Warnock foi mais longe e comparou o United com clubes que trabalham com orçamentos muito menores.
Se nada mudar, eles vão ter dificuldades. Venha quem vier, vai ter dificuldades. Olhamos para clubes como Brighton ou Bournemouth e constatamos que trabalham bem. Mas, quando olhamos para o Manchester United, se o departamento de recrutamento não consegue ver aquilo que eu tenho visto ao longo dos cinco últimos anos, então é porque algo de errado se passa noutro sítio, concluiu o treinador, um dos mais experientes do futebol inglês.
A comparação dói porque é justa. O Brighton e o Bournemouth não têm o poder financeiro do United, mas recrutam com critério, constroem equipas coerentes e competem acima das suas possibilidades. O Manchester United faz o contrário: paga fortunas, contrata para a galeria e depois não tem um lateral capaz de defender. Não é azar, é um modelo.
Um clube em crise que ninguém assume
Os números falam por si. Derrota por 4-1 no Como, derrota por 3-0 em casa com o Bournemouth, derrota por 2-0 em Stamford Bridge. Entre vitórias, poucas ou nenhumas. O capitão português, o melhor jogador da equipa segundo o próprio Warnock, foi castigado por dizer em voz alta o que as bancadas murmuram há meses: que o problema está em cima, em quem decide.
Bruno Fernandes pagou com o banco de suplentes a ousadia de apontar responsabilidades. A direção, essa, não pagou nada. Continua a gastar, continua a errar e continua intocável. É a lógica de sempre: quem está em baixo responde pelos erros de quem está em cima.
A questão que fica no ar é simples. Se um treinador com 77 anos e uma vida inteira de relvados consegue ver o problema, porque é que quem gere um dos clubes mais ricos do mundo não o vê? A resposta de Warnock já foi dada: algo de errado se passa noutro sítio.
Perguntas frequentes
Porque foi Bruno Fernandes posto no banco?
O internacional português foi remetido ao banco de suplentes no jogo com o Bournemouth, que o United perdeu por 3-0 em Old Trafford, depois de ter apontado Michael Carrick como o principal culpado da derrota por 4-1 frente ao Como, a 21 de outubro.
O que disse Neil Warnock sobre a direção do Manchester United?
Warnock acusou a direção de gastar somas recorde em avançados e médios sem contratar defesas, deu o Arsenal como exemplo e disse que o departamento de recrutamento deveria ter contratado Ezri Konsa em vez de gastar 100 milhões de libras num médio.
Bruno Fernandes já regressou ao onze?
Sim. O capitão jogou os 90 minutos da derrota por 2-0 frente ao Chelsea, em Stamford Bridge, no passado sábado, e dirigiu-se aos adeptos emocionado após o apito final.
