Vitória SC: 75 milhões de dívida e recorde nas eleições
A máquina financeira engoliu mais um clube. O Vitória de Guimarães vai às urnas neste sábado com um fantasma que teima em não desaparecer: uma dívida que ronda os 75 milhões de euros e uma SAD cujo capital próprio era negativo em 24 milhões no final da época 2024/25. O défice crónico entre receitas e despesa só se compensa com vendas de jogadores, como se o clube fosse uma fábrica a descarregar ativos para manter as luzes acesas.
É neste cenário de sangria financeira que quatro listas se apresentam aos sócios, um número recorde em toda a história eleitoral do clube da I Liga. A crise, em vez de afastar candidatos, parece ter feito o contrário. Há quem veja nisto um sinal de vitalidade cívica. Mas há também quem pergunte: com 75 milhões de passivo, para onde é que alguém quer levar este clube?
António Miguel Cardoso sai após promessa cumprida
Quem deixou a cadeira foi António Miguel Cardoso. Eleito em 2022 com 62,5% dos votos e reeleito em 2025 com 89,4%, demitiu-se a 14 de abril. Tinha prometido que sairia se a equipa ficasse abaixo do quinto posto. Ficou em nono. Cumpriu a palavra, mas a palavra já chegava tarde para muitos vimaranenses que viam o clube afogar-se em números vermelhos.
A sua saída antecipou uma corrida eleitoral que estava marcada para março de 2028. Quatro nomes avançaram: Belmiro Pinto dos Santos (lista A), Júlio Vieira de Castro (lista B), Viriato Sampaio (lista C) e Rui Rodrigues (lista D). As candidaturas foram entregues em 14 de maio e validadas no dia seguinte.
As propostas: entre fundos americanos e obrigacionistas
Belmiro Pinto dos Santos, que presidiu à mesa da assembleia-geral entre 2022 e 2025, defende mais investimento no plantel. A solução? Uma holding norte-americana. Ao mesmo tempo, promete cortar custos na estrutura que apoia o futebol, com Ricardo Pimenta Machado como candidato a vice-presidente e o ex-treinador Manuel Machado como diretor técnico. Mais dinheiro para o campo, menos na máquina. A receita é conhecida, os resultados nem sempre.
Júlio Vieira de Castro regressa às urnas. Em 2018, perdeu as eleições mais equilibradas da história do Vitória, com 47,6% dos votos frente a Júlio Mendes. Agora quer aprofundar a parceria com o fundo V Sports, dono dos ingleses do Aston Villa e detentor de 29% da SAD. Aposta na formação. Mas a entrada de fundos de investimento no futebol levanta sempre questões: quem ganha realmente com estas parcerias?
Viriato Sampaio tem outra leitura. É preciso reestruturar o passivo da SAD e diferi-lo no tempo. A proposta passa por um empréstimo obrigacionista entre 75 a 100 milhões de euros, a pagar num horizonte de 20 a 30 anos. Diogo Boa Alma ficaria com o cargo de diretor desportivo. A dívida não desaparece, espalha-se por décadas. Para alguns, é responsabilidade. Para outros, é empurrar o problema para a próxima geração.
Rui Rodrigues, ainda em funções na direção demissionária como vice-presidente para a área financeira, quer também aprofundar a ligação ao V Sports, reforçar a presença da formação no plantel principal, entregar o cargo de diretor desportivo a Fernando Meira e prolongar o prazo de pagamento de parte das dívidas. A lógica é semelhante: ganhar tempo.
Um clube que pertence aos sócios
Num clube em que cada sócio tem direito a um voto, o recorde de afluência data de 24 de março de 2018, quando 7.274 associados exerceram o seu direito nas eleições que opuseram Júlio Mendes a Júlio Vieira de Castro. As urnas abrem no Pavilhão Desportivo Unidade Vimaranense, entre as 09:00 e as 19:00.
A questão que se coloca não é apenas quem vence. É que tipo de clube os vimaranenses querem para o futuro. Um clube dependente de vendas de jogadores e fundos de investimento? Ou um projeto que coloque a formação e a comunidade no centro? As respostas estão nas mãos de quem vota.