ULS Lezíria: Números positivos escondem a realidade da crise do Serviço Nacional de Saúde
A Unidade Local de Saúde da Lezíria (ULS Lezíria) divulgou resultados que considera "muito positivos" para 2025, mas uma análise mais atenta revela uma realidade bem diferente: o crescimento da atividade reflecte sobretudo a pressão crescente sobre um sistema de saúde em crise estrutural.
Visitas domiciliárias aumentam por falta de resposta hospitalar
O aumento de 9% nas visitas domiciliárias médicas e de 23% nas de enfermagem pode parecer positivo, mas esconde uma verdade incómoda: os profissionais de saúde são obrigados a deslocar-se mais porque as pessoas não conseguem chegar aos hospitais ou centros de saúde.
"É um crescimento forçado pelas circunstâncias", explica uma fonte próxima dos profissionais de saúde da região, que prefere manter o anonimato. "Os utentes não têm transportes públicos dignos, não têm dinheiro para combustível, e muitos idosos estão isolados".
Consultas descentralizadas: solução ou precarização?
O comunicado oficial celebra o crescimento de 114% nas primeiras consultas descentralizadas, realizadas por especialistas hospitalares nos centros de saúde. Mas esta "descentralização" esconde uma realidade preocupante: médicos especialistas a trabalhar em condições precárias, deslocando-se entre unidades sem condições adequadas.
"É uma forma de esticar o sistema ao máximo, mas não resolve o problema de fundo", critica um sindicalista da área da saúde. "Os especialistas fazem malabarismo entre várias unidades, sem tempo para acompanhar devidamente os doentes".
Menos urgências: progresso ou abandono?
A redução de 10% nos episódios de urgência hospitalar é apresentada como uma vitória, mas levanta questões perturbadoras. Será que as pessoas deixaram de precisar de cuidados urgentes ou simplesmente desistiram de os procurar?
"Muitas pessoas desistem de ir às urgências porque sabem que vão esperar horas e horas", conta Maria, reformada de 67 anos de Santarém. "Preferem aguentar a dor em casa".
O discurso oficial versus a realidade no terreno
Pedro Marques, presidente do Conselho de Administração da ULS Lezíria, fala em "motivo de orgulho colectivo", mas os profissionais de saúde no terreno contam uma história diferente: sobrecarga de trabalho, falta de recursos e utentes cada vez mais desesperados.
O aumento da taxa de ambulatorização de 72% para 77% pode significar maior eficiência, mas também pode reflectir a pressão para libertar camas rapidamente, mesmo quando os doentes precisariam de mais tempo de internamento.
Um sistema a funcionar no limite
Estes números, apresentados como sucessos, revelam na verdade um Serviço Nacional de Saúde a funcionar no limite, onde os profissionais fazem milagres diários para manter o sistema de pé. O crescimento da actividade não é sinónimo de melhoria da qualidade dos cuidados, mas sim de um sistema que tenta responder como pode a uma procura crescente com recursos insuficientes.
Enquanto a administração celebra, os trabalhadores da saúde e os utentes continuam a pagar o preço de décadas de desinvestimento e políticas de austeridade que transformaram a saúde pública numa corrida contra o tempo.