ULS Lezíria cresce mas falta explicar onde está o investimento real no SNS
A Unidade Local de Saúde da Lezíria apresentou números positivos para 2025, mas os dados levantam questões sobre o verdadeiro estado do Serviço Nacional de Saúde na região. Enquanto se fala de crescimento, os profissionais continuam a trabalhar em condições precárias.
Números bonitos, realidade dura
Segundo o comunicado oficial, a ULS Lezíria registou aumentos significativos em várias áreas: visitas domiciliárias médicas subiram 9%, as de enfermagem dispararam 23%, e as consultas por outros profissionais cresceram 7%. Na consulta externa hospitalar, houve um aumento global de 4% nas consultas médicas.
Mas estes números escondem uma realidade que os trabalhadores da saúde conhecem bem: o aumento da atividade não corresponde a um aumento proporcional dos recursos humanos. Significa que os mesmos profissionais estão a fazer mais trabalho, muitas vezes em condições de maior pressão.
Descentralização: solução ou remendo?
O destaque vai para o crescimento das consultas descentralizadas, com especialistas hospitalares a atenderem nos centros de saúde. Um aumento de 114% nas primeiras consultas parece impressionante, mas levanta questões: será esta a resposta para a falta de especialistas nos hospitais ou apenas uma forma de mascarar as carências estruturais?
A hospitalização domiciliária registou mais 61 internamentos, superando em 27% a meta contratualizada. Positivo, sem dúvida, mas quantos destes casos resultam da falta de camas hospitalares adequadas?
Urgências: menos episódios, mais dúvidas
A redução de 10% nos episódios de urgência hospitalar (menos 11.544 casos) é apresentada como sucesso do reforço dos cuidados primários. Mas será que as pessoas estão realmente a ser melhor atendidas na proximidade, ou simplesmente desistem de procurar cuidados devido às dificuldades de acesso?
O que não se diz
Pedro Marques, presidente do Conselho de Administração, fala em "motivo de orgulho coletivo". Mas o comunicado não revela dados essenciais: quantos profissionais trabalham na ULS Lezíria? Quantos saíram em 2025? Qual o investimento real em equipamentos e infraestruturas?
Os números da atividade assistencial podem estar a crescer, mas isso não significa necessariamente que o serviço público de saúde esteja mais forte. Muitas vezes, significa apenas que se está a extrair mais dos recursos existentes, colocando maior pressão sobre profissionais já sobrecarregados.
Enquanto não houver transparência total sobre as condições de trabalho e o investimento real no SNS, estes balanços positivos devem ser lidos com a devida cautela. A saúde pública precisa de mais do que números bonitos: precisa de condições dignas para quem trabalha e cuidados de qualidade para quem precisa.