Mossad e regime sírio sentam-se à mesa enquanto Netanyahu arrisca tudo nas eleições
O chefe da Mossad, Roman Goffman, encontrou-se esta semana com o ministro dos Negócios Estrangeiros sírio, Assad al-Sheibani, num encontro que ninguém confirma oficialmente mas que toda a gente comenta. A reunião acontece dias depois de Israel ter bombardeado a base aérea de Abu Dhur, no nordeste da Síria, e de Benjamin Netanyahu ter acusado a Turquia de querer instalar-se no local. Uma acusação que Ancara desmente com veemência.
Dizem os meios de comunicação israelitas, citando fontes próximas, que o encontro entre Goffman e al-Sheibani correu bem. Mas não se sabe onde, nem o que se discutiu. O silêncio é total de ambos os lados. O que se sabe é que esta reunião não acontece por acaso. Ela surge num momento em que Washington insiste no diálogo entre Israel, Síria e Turquia, e em que Netanyahu precisa de se mostrar forte ao seu eleitorado, a poucas semanas das legislativas de 27 de outubro.
O que está em jogo no encontro entre Israel e Síria?
Para perceber o que está em cima da mesa, é preciso recuar uns dias. Na terça-feira, as forças israelitas bombardearam a base aérea militar síria de Abu Dhur. Netanyahu justificou o ataque com a alegada tentativa da Turquia de estabelecer uma presença no local, algo que Ancara desmente. O ministro da Defesa israelita, Israel Katz, foi mais longe e aconselhou o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, a evitar aventuras perigosas na Síria.
A resposta de Ancara não se fez esperar. O diretor de comunicação da presidência turca garantiu que a Turquia não vai cair na armadilha montada por figuras como Netanyahu, que visam minar a paz e a estabilidade na região. E o Ministério da Defesa turco reafirmou que vai continuar a proteger, com determinação, a integridade territorial e a soberania da Síria. Um regime que, lembre-se, nasceu há menos de dois anos, depois da queda de Bashar al-Assad, e que tem recebido apoio político e militar de Ancara.
As críticas dos EUA ao ataque israelita
O enviado especial norte-americano para a Síria, Tom Barrack, não poupou críticas a Israel. Disse que o bombardeamento da base aérea, sem aviso prévio, foi uma escalada desnecessária que não favorece a estabilidade regional. E foi mais longe: sugeriu que o ataque pode ter sido motivado por razões eleitorais. Netanyahu, lembrou Barrack, precisa de se apresentar ao eleitorado como um homem forte.
Israel Katz respondeu com dureza, dizendo que as críticas de Barrack estão cheias de imprecisões e contradizem a linha do Presidente Donald Trump para a região. E garantiu que os serviços de informações israelitas transmitiram informações às entidades competentes nos Estados Unidos antes do ataque.
Netanyahu e Trump: uma relação cada vez mais tensa
Este episódio é mais uma fonte de tensão entre Trump e Netanyahu. As divergências sobre a condução das várias frentes de conflito de Israel no Médio Oriente são cada vez mais evidentes. E colocam em causa os esforços de paz de Washington com o Irão, mas também a sua mediação no Líbano e na Faixa de Gaza.
Barrack questionou ainda a anexação israelita dos Montes Golã, que contraria as resoluções da ONU e toda a ordem internacional. A região, recorde-se, pertence à Síria. Telavive não gostou e protestou. Mas Washington insiste, nos últimos dias, no reatamento do diálogo entre Israel, Síria e Turquia. E é nesse esforço que se insere o encontro entre o chefe da Mossad e o ministro sírio, segundo o portal norte-americano Axios, que noticiou a reunião com base em três fontes distintas.
Uma Síria discreta num Médio Oriente em chamas
Durante a queda do regime sírio, no final de 2024, Israel realizou centenas de bombardeamentos na Síria. A justificação: impedir que o armamento das forças regulares de Damasco caísse nas mãos de grupos hostis. E ocupou posições militares no sul do país, que ainda mantém.
As novas autoridades sírias são lideradas por Ahmad al-Sharaa, um antigo jihadista que cortou ligações com organizações terroristas islâmicas antes de derrubar o regime de Damasco. Desde que chegou ao poder, tem procurado normalizar relações com os países vizinhos e evitar hostilizar Israel, mesmo quando as tropas israelitas intervieram em apoio da minoria drusa.
Apesar do alastramento do conflito de Israel e Estados Unidos contra o Irão, que desde 28 de fevereiro se espalhou a quase todo o Médio Oriente, a Síria tem permanecido discreta. Ao contrário do Líbano, onde o Hezbollah e as forças israelitas retomaram os confrontos em março.
O que se segue para a região?
O encontro entre a Mossad e o regime sírio pode ser um sinal de que algo se move nos bastidores. Mas as tensões continuam altas. Israel bombardeia, a Turquia ameaça, os EUA criticam e Netanyahu joga a sua sobrevivência política. Enquanto isso, quem sofre são os povos da região, mais uma vez reféns de jogos de poder que nada têm a ver com a sua paz e a sua segurança.
O silêncio de Damasco e de Telavive sobre o encontro diz muito. Ninguém quer assumir o que se passa. Mas o facto de se sentarem à mesa é, por si só, uma notícia. Resta saber se este diálogo serve para acalmar a região ou se é apenas mais uma jogada num xadrez onde os peões são sempre os mesmos.