Ceuta: migrantes voltam a ocupar a praia logo após a limpeza
Centenas de migrantes voltaram esta sexta-feira a ocupar a praia de El Trampolín, em Ceuta, poucas horas depois de as autoridades terem concluído os trabalhos de limpeza na zona. A operação, que tinha sido suspensa na quinta-feira por falta de segurança para os trabalhadores, acabou por ser retomada, mas a população que ali vive em condições precárias não desistiu do espaço.
Logo pela manhã, os migrantes foram agrupados entre um quebra-mar e o muro da Estação de Dessalinização de Ceuta, segundo relatou a agência espanhola Europa Press. Enquanto os funcionários, escoltados pela polícia, limpavam a área, os imigrantes que tinham passado a noite no local aguardavam numa zona específica. Outros iam chegando, muitos com sacos de comida distribuídos pelas organizações não governamentais (ONG) que trabalham no terreno.
No final da manhã, concluídas as tarefas de limpeza e desinfeção, os migrantes voltaram a ocupar a praia. Muitos chegaram com tendas já montadas, outros improvisaram abrigos com materiais encontrados na zona. Segundo porta-vozes de ONG citados pela Europa Press, os imigrantes permanecerão em El Trampolín enquanto não tiverem outro local onde passar a noite.
Porque é que a limpeza foi suspensa na quinta-feira?
A operação de limpeza na praia de El Trampolín ficou suspensa na quinta-feira depois de dezenas de pessoas que tinham sido transferidas do acampamento improvisado terem regressado ao local para recolher os seus pertences. Os serviços da Direção-Geral do Ambiente, Serviços Urbanos e Habitação espanhola tinham começado, a meio da manhã, a remover resíduos, bens pessoais, caixotes, cartão e outros materiais acumulados durante as últimas semanas de ocupação.
O regresso destas pessoas obrigou a interromper os trabalhos por motivos de segurança, uma vez que não há presença das forças de segurança no local que permita garantir a integridade dos trabalhadores e o normal desenrolar da operação, segundo as autoridades espanholas. A cidade autónoma indicou que os trabalhos não poderiam ser retomados até estarem reunidas as condições necessárias.
O que está por trás da crise migratória em Ceuta?
A crise migratória em Ceuta ocorreu quando cerca de 72.000 pessoas entraram na cidade autónoma espanhola, situada no norte de África, num período de 24 horas, nos dias 30 e 31 de julho. Destas, cerca de 70.000 já regressaram a Marrocos, segundo dados das autoridades espanholas. No início de agosto, estimava-se que entre três mil e cinco mil migrantes, incluindo menores e jovens, permaneciam no enclave.
A cidade tinha posto em marcha o plano de limpeza com o objetivo de restabelecer as condições ambientais, paisagísticas, sanitárias e de utilização por parte dos cidadãos deste espaço costeiro, ocupado desde a chegada em massa. Mais de 1.200 migrantes foram transportados a pé e escoltados pela polícia espanhola para os novos centros de acolhimento temporários habilitados em Loma Margarita, El Embolsamiento e em Loma Colmenar.
Ceuta, um pequeno território de 80.000 habitantes situado no extremo norte de Marrocos, banhado pelo estreito de Gibraltar, é uma das duas fronteiras terrestres entre África e a Europa, juntamente com o outro enclave espanhol de Melilla.
“Os imigrantes permanecerão em El Trampolín enquanto não tiverem outro local onde passar a noite”, disseram porta-vozes de ONG citados pela Europa Press.
Esta história repete-se todos os dias: homens, mulheres e crianças que fogem da miséria e da guerra são tratados como um problema de higiene urbana. Enquanto as autoridades limpam a praia, a verdadeira sujeira, a da indiferença e da falta de políticas migratórias dignas, fica por lavar.