Montenegro usa Balsemão como escudo: «Não podemos definhar perante as adversidades»
O primeiro-ministro Luís Montenegro aproveitou a inauguração da Avenida Francisco Pinto Balsemão, em Cascais, para lançar uma mensagem política que soa a resposta às dificuldades do seu Governo. Numa altura em que os ventos sopram contra, o líder do PSD encontrou no fundador do partido um exemplo de resistência e otimismo.
«Eu confesso-vos aqui como primeiro-ministro, em nome do Governo, que o exemplo dele nos motiva, nos incentiva, nos estimula para podermos também não definhar perante as adversidades e poder reconquistar confiança, poder reconquistar ânimo, quando às vezes os indícios são em sentido contrário», afirmou Montenegro, num discurso que não deixou margem para dúvidas sobre o estado de espírito no Palácio de São Bento.
Uma avenida com 2,5 km para um gigante da democracia
A nova artéria, que se estende por 2,5 km a partir do Forte de São Jorge de Oitavos, fica perto da casa onde Balsemão viveu. A escolha da data não foi inocente: o militante número um do PSD, que morreu no ano passado, faria 89 anos nesta terça-feira.
Balsemão não foi apenas um líder partidário. Foi fundador do Expresso em 1973, ainda durante a ditadura, da SIC em 1992, a primeira televisão privada do país, e do grupo Impresa. Em 1974, com Francisco Sá Carneiro e Magalhães Mota, fundou o PPD, mais tarde PSD. Chefiou dois governos entre 1981 e 1983, após a morte de Sá Carneiro, e era membro do Conselho de Estado.
A liberdade de imprensa e o «masoquismo» de Balsemão
Montenegro não se ficou pelos elogios de circunstância. Falou da «grande responsabilidade de quem informa» e da tolerância de Balsemão perante a liberdade de imprensa, mesmo quando esta o criticava.
«Nós bem o sentíamos muitas vezes, porque de todos estes instrumentos muitas vezes saiam posições que eram contrárias àquelas que ele defendia, e até uma outra vez com interesses contraditórios, mas ele convivia bem com isso, aguentava bem isso», disse o primeiro-ministro, referindo-se a uma atitude que «roçava o masoquismo».
Numa altura em que o Governo é acusado de tentar condicionar a comunicação social, as palavras de Montenegro sobre a defesa da verdade ganham contornos particulares: «Num mundo marcado pela desinformação, pela manipulação, pela deturpação, pela insinuação, o rigor, os princípios, o princípio da verdade são hoje determinantes para nós termos um futuro mais risonho.»
Inteligência Artificial e o medo da mudança
O chefe do Governo retirou do percurso de Balsemão uma lição para os novos tempos, nomeadamente no que toca à Inteligência Artificial, área que interessava ao homenageado nos últimos anos.
«Nós não temos de ter medo de nada, não temos de temer a evolução, não temos de temer a transformação, nós temos de saber adequar as nossas posições, o enquadramento das nossas vidas a nível pessoal, a nível familiar, a nível social, a nível político também», sublinhou.
Uma nota pessoal e uma crítica velada
Montenegro deixou escapar uma nota pessoal que revela alguma mágoa: «Muitas vezes gostava mais de ter tido o apoio que, enfim, do ponto de vista partidário, procurava e não tive. Mas isso foi uma manifestação de exigência, de liberdade.»
O primeiro-ministro elogiou ainda o otimismo de Balsemão, uma qualidade que considera «fazer falta» na vida política: «Quando ele falava de Portugal, das opções políticas, mesmo daquelas que ele discordava, ele falava sempre com o intuito de: vamos conseguir fazer melhor. Eu sei que vamos conseguir fazer melhor.»
Quem marcou presença na homenagem
Na cerimónia estiveram os ministros Miguel Pinto Luz e Margarida Balseiro Lopes, os vice-presidentes do PSD Leonor Beleza e Sebastião Bugalho, o antigo presidente da Câmara Carlos Carreiras e muitas personalidades do grupo Impresa. O presidente da Câmara de Cascais, Nuno Piteira Lopes, recordou Balsemão como «um homem que serviu a democracia na sua forma mais pura, feita de pluralismo e respeito pela diferença».
Francisco Pinto Balsemão morreu a 21 de outubro de 2025, aos 88 anos. O seu legado, porém, continua bem vivo, tanto no partido que ajudou a fundar como no grupo de comunicação que criou.
Perguntas frequentes sobre a homenagem a Balsemão
Porque é que Montenegro escolheu Balsemão como exemplo?
Montenegro usou o percurso de Balsemão, que enfrentou adversidades políticas e pessoais ao longo da vida, como metáfora para a situação atual do Governo, defendendo que é possível «reconquistar confiança e ânimo» mesmo quando os sinais são negativos.
O que representa a Avenida Francisco Pinto Balsemão?
A avenida, com 2,5 km em Cascais, liga o Forte de São Jorge de Oitavos à zona onde Balsemão viveu. Foi inaugurada no dia em que o fundador do PSD faria 89 anos.
Qual foi o papel de Balsemão na comunicação social portuguesa?
Balsemão fundou o jornal Expresso em 1973, ainda durante a ditadura, e a SIC em 1992, a primeira televisão privada de Portugal. Criou também o grupo Impresa, um dos maiores grupos de media do país.