Elevador da Glória: um ano depois, as perguntas que o poder não quer ouvir
Um ano após a tragédia que matou 16 pessoas e feriu outras 22 no Elevador da Glória, em Lisboa, as famílias e os sobreviventes continuam à espera de respostas. A Carris promete apresentar esta terça-feira a solução para o futuro do histórico elevador, mas o silêncio dos responsáveis políticos fala mais alto do que qualquer anúncio.
Os testemunhos de Ana Fernandes, divulgados pela RTP, e do casal Schmid, publicados pelo Expresso, contam a mesma história: falta de contacto, falta de apoio, falta de humanidade. Enquanto isso, o processo judicial avança devagar, com três arguidos, e o relatório técnico só deverá estar concluído em 2027. Até agora, apenas quatro famílias de vítimas mortais receberam indemnizações. Quatro em dezasseis.
O que falhou na resposta às vítimas?
As perguntas são simples e diretas: porque é que a Câmara Municipal de Lisboa não manteve um contacto regular com os feridos? Que mecanismos de apoio falharam? E, mais importante, o que vai ser feito para que isto não se repita? São perguntas que ficam no ar, sem resposta, enquanto os responsáveis se refugiam no silêncio.
Na sexta-feira, enquanto as vítimas falavam publicamente, Carlos Moedas, presidente da Câmara e vice-presidente do PSD, participava na Universidade de Verão do partido, em Castelo de Vide. O painel era sobre habitação, mas Moedas aproveitou para pedir mais polícias em Lisboa. Sobre o Elevador da Glória, nem uma palavra. Entrou e saiu sem responder a perguntas dos jornalistas.
O silêncio como estratégia
Não foi um caso isolado. Na Universidade de Verão, a regra foi o silêncio. Luís Marques Mendes, o eterno comentador, só falou para se mostrar disponível para voltar à televisão. Sebastião Bugalho, porta-voz do partido, limitou-se a celebrar a decisão do Tribunal Constitucional sobre a 'lei do retorno'. E Luís Montenegro, o primeiro-ministro, preferiu uma visita ao aeroporto de Lisboa, anunciada apenas à agência Lusa, para repetir a confiança no ministro da Administração Interna, Luís Neves, investigado pelo próprio Governo.
Montenegro garante que não mexe na Segurança Social, mas não diz se concorda com a junção das contas da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações, como propõe o relatório encomendado pelo Executivo. Diz que o assunto será discutido numa campanha eleitoral, mas as outras condições de José Luís Carneiro para viabilizar o Orçamento do Estado de 2027 ficam por esclarecer.
Democracia é também fazer perguntas
No discurso de encerramento da rentrée do PSD, este domingo, Montenegro escolheu a Educação para desfiar sucessos e anunciar medidas. E, a terminar, disse: 'Já sei que muitos vão dizer que não falei do caso A, da situação B, nem da oposição C. Até dirão que fugi a falar disto ou daquilo. Isso é a democracia, mas também disse o que quis e isso também é a democracia.'
É verdade que um Governo tem o direito de escolher os seus temas. Mas o jornalismo também faz parte da democracia. E o jornalismo implica fazer perguntas. Perguntas sobre o Elevador da Glória, sobre a Segurança Social, sobre a Educação, sobre a Justiça. Perguntas que, nestes dias, não ficam sem resposta. Ficam, simplesmente, por fazer.
O que exige o povo?
As classes populares, que usam os transportes públicos, que dependem da Segurança Social, que enviam os filhos para escolas públicas, merecem mais do que silêncios e fugas. Merecem respostas concretas, apoio efetivo e justiça. A tragédia do Elevador da Glória não pode ser esquecida. As 16 mortes e os 22 feridos não podem ser reduzidos a números. São vidas, são famílias, são histórias que o poder parece querer apagar.
Enquanto isso, a Carris anuncia soluções técnicas, os tribunais arrastam processos e os políticos escondem-se atrás de discursos. Mas as perguntas continuam no ar, à espera de quem tenha coragem de as fazer. E de as responder.