Ben-Gvir volta a profanar a Esplanada das Mesquitas e desafia o mundo árabe
O ministro da Segurança Nacional de Israel, o ultranacionalista Itamar Ben-Gvir, voltou esta segunda-feira a invadir a Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém, num novo desafio ao estatuto jurídico e histórico do local sagrado. Acompanhado por colonos e escoltado pelas forças de segurança israelitas, o político extremista percorreu o complexo a realizar rituais judaicos, expressamente proibidos na zona.
Esta não é uma ação isolada. É mais um capítulo de uma escalada sistemática que visa impor uma nova realidade sobre um dos lugares mais sensíveis do conflito israelo-palestiniano. E o silêncio da comunidade internacional começa a pesar como chumbo.
O que dizem as autoridades palestinianas?
O governo palestiniano de Jerusalém não poupou palavras. Numa nota oficial, classificou a incursão como uma “violação flagrante” e uma tentativa de “impor novas realidades sobre a mesquita e alterar a sua identidade islâmica”.
As autoridades alertaram ainda para o “risco que representam as incursões contínuas por parte das autoridades e dos colonos israelitas”, que ali realizam os chamados ritos talmúdicos, práticas e rezas codificadas no Talmude. O objetivo, denunciam, é claro: “impor o controlo sobre a mesquita e dividir a zona” a todos os níveis.
Perante isto, o governo palestiniano instou a comunidade internacional a “assumir as suas responsabilidades” e a “preservar o estatuto jurídico e histórico que existe atualmente”.
O que está em causa no estatuto da Esplanada?
Para perceber a gravidade do ato, é preciso recuar a 1967. Foi nesse ano que o Governo israelita definiu o statu quo na Esplanada das Mesquitas, entregando a administração do local sagrado ao Waqf, uma instituição jordana.
As regras são simples e claras: o culto ali é exclusivo para muçulmanos. Os judeus podem visitar o local como turistas, mas não podem rezar. Ben-Gvir, ao realizar rituais judaicos no complexo, não está apenas a violar a lei. Está a pisar uma linha vermelha que, se for ultrapassada, pode incendiar toda a região.
Para os judeus, o local é conhecido como Monte do Templo, por ser onde se erguiam os seus dois templos sagrados. Para os muçulmanos, é a mesquita de Al-Aqsa, o terceiro local mais sagrado do Islão. Esta dualidade é o coração do conflito.
Hamas promete resistência
O Movimento de Resistência Islâmica Hamas também condenou veementemente o que designou como um “assalto” à Esplanada. Em comunicado, o grupo afirmou que a incursão representa um “ataque flagrante contra a santidade da mesquita de Al-Aqsa e um desrespeito pelos sentimentos dos muçulmanos”.
Mas o Hamas foi mais longe. Estabeleceu uma ligação direta entre esta ação e o calendário eleitoral israelita. Segundo o movimento, os líderes da ocupação e os partidos de direita estão a “instrumentalizar a situação” na perspetiva das eleições, com o objetivo de “intensificar a sua agressão” contra a terra, o povo e os locais sagrados palestinianos.
A mensagem final é um aviso: “O nosso povo e a nossa resistência não ficarão impassíveis perante a profanação dos nossos locais sagrados e continuarão a defendê-los por todos os meios.”
Uma escalada que não começou hoje
Esta invasão acontece poucas semanas depois de a Jordânia ter convocado, no início do mês, os ministros dos Negócios Estrangeiros dos países islâmicos, precisamente em resposta às crescentes incursões em massa de colonos israelitas e de líderes da extrema-direita judaica no lugar sagrado.
O cenário repete-se há meses. No final de julho, durante a celebração de Tisha B'Av, mais de 3.000 judeus entraram na Esplanada das Mesquitas, escoltados pela polícia israelita e acompanhados por Ben-Gvir. Nessa ocasião, o ministro exigiu abertamente que Israel assumisse o controlo total do Monte do Templo.
Ben-Gvir não esconde as suas intenções. É um defensor acérrimo da anexação da Cisjordânia e do movimento dos colonos, cuja violência tem aumentado significativamente nos últimos meses. As suas ações falam por si.
Em maio, fez-se filmar, triunfante, junto de ativistas ajoelhados e algemados da flotilha internacional que procurava chegar à Faixa de Gaza com ajuda humanitária. Uma imagem que ficou para a história como símbolo da arrogância do poder.
Perguntas frequentes sobre a Esplanada das Mesquitas
Porque é que a Esplanada das Mesquitas é tão importante?
A Esplanada das Mesquitas, também conhecida como Monte do Templo, é um dos locais mais sagrados do mundo. Para os muçulmanos, alberga a mesquita de Al-Aqsa, o terceiro local mais sagrado do Islão. Para os judeus, é o local onde se erguiam os dois templos sagrados do judaísmo.
O que é o statu quo e porque é que está em risco?
O statu quo foi definido em 1967 e estipula que o culto na Esplanada é exclusivo para muçulmanos, sendo os judeus apenas autorizados a visitar o local como turistas. As incursões de Ben-Gvir e dos colonos, com rituais judaicos, violam este acordo e ameaçam alterar o equilíbrio religioso e político da região.
O que pode acontecer se a escalada continuar?
As autoridades palestinianas e o Hamas alertam para o risco de uma nova explosão de violência. A comunidade internacional é instada a intervir para preservar o estatuto jurídico e histórico do local, mas até agora as ações têm sido meramente simbólicas.