Benfica-Estoril: a arbitragem que ninguém viu e os descontos que faltaram
Na segunda-feira à noite, na Luz, o Benfica venceu o Estoril por 3-1, mas o jogo ficou marcado por uma arbitragem que, no papel, até foi positiva, mas que na prática deixou muitas dúvidas. O árbitro Hélder Carvalho apitou 26 faltas, mostrou apenas um cartão amarelo e deixou o tempo útil de jogo nos 62%. Para quem vive o futebol como paixão e não como negócio, fica a sensação de que a disciplina foi aplicada com conta, peso e medida... mas talvez a medida certa fosse outra.
Lances polémicos: o que o árbitro viu (e o que não viu)
Logo aos 13 minutos, um canto a favor do Benfica quase deu golo. Na área, Xeka e Leandro Barreiro chocaram de forma normal, ambos de olhos na bola. Nada a assinalar, diz o árbitro. E talvez tenha razão.
Mas aos 18 minutos, a coisa complica-se. Samuel Dahl passa a bola a Gianluca Prestianni, que é empurrado por Ricard Sanchez antes de receber o passe. Fora da área, sim, mas o lance cortou um ataque prometedor. Livre direto? Claro. Cartão amarelo? Devia ter sido mostrado, mas não foi. E é aqui que começa a sensação de que a lei foi aplicada com luvas de pelica.
No minuto 53, Samuel Soares sai aos socos a um cruzamento e acerta na cabeça de Ismael Sierra. Contacto inevitável, dizem as imagens. Legal, sem penálti. Até aqui, tudo bem.
Mas aos 70 minutos, Fernando Medrano rasteira Alexander Bah na entrada da área. Falta negligente, clara, e que merecia amarelo. O árbitro preferiu só marcar a falta. Aos 75, Ismael Sierra entra duro, falha a bola e derruba Bah. Desta vez, amarelo bem mostrado. Mas porque é que uns lances são punidos e outros não?
Os descontos: uma vergonha para quem paga bilhete
O que mais revoltou os adeptos foi a gestão do tempo. No final da primeira parte, o árbitro deu três minutos de descontos. Mas houve assistências médicas prolongadas a Enzo Barrenechea e a Xeka, um golo do Benfica e respetiva comemoração, e ainda uma substituição. Três minutos para tudo isto? É pouco, muito pouco.
Na segunda parte, a história repetiu-se. Três minutos de descontos, mas houve quatro paragens para substituições (entraram oito jogadores), dois golos e comemorações, um cartão amarelo e uma assistência médica a Stelios Andreou que durou 1 minuto e 26 segundos. Ou seja, só essa assistência consumiu metade do tempo adicional dado pelo árbitro. Não se compreende este encurtar sistemático dos descontos numa competição onde cada golo conta e há prémios para os melhores marcadores.
Os seis jogadores no aquecimento: uma regra que poucos conhecem
Houve ainda um pormenor que passou despercebido: aos 64 minutos, estavam seis jogadores do Benfica a aquecer atrás do árbitro assistente. A lei diz que só podem estar cinco de cada equipa, mas desde a época passada, com o consentimento do Conselho de Arbitragem, pode haver um sexto para prevenir a substituição extra em caso de concussão cerebral. Se um jogador se lesionar na cabeça, a equipa pode fazer uma substituição extra, que não conta para as cinco regulamentares. E há um cartão roxo para assinalar essa diferença. Detalhes que mostram como o futebol moderno é cada vez mais um labirinto de regras.
O golo do Estoril: legal, mas por pouco
No golo do Estoril, não houve fora de jogo. A posição do jogador interveniente era legal por 53 centímetros. Ou seja, por pouco, mas foi bem anulado. Mais uma prova de que, no futebol, a linha entre o legal e o ilegal é tão fina como a linha do relvado.
Conclusão: uma arbitragem tecnicamente positiva, mas socialmente injusta
No papel, o trabalho de Hélder Carvalho foi tecnicamente positivo. Mas para quem vê o futebol de fora, com olhos de quem paga bilhete e sente o jogo, fica a sensação de que a disciplina foi aplicada com critérios que nem sempre são claros. E os descontos, esses, são um escândalo recorrente que prejudica o espetáculo e o esforço das equipas. Numa altura em que o futebol é cada vez mais um negócio, é preciso lembrar que há gente nas bancadas que quer ver bola a rolar, não relógio a parar.