Lula e Sheinbaum fazem frente à ingerência dos EUA na América Latina
Os maiores países da América Latina dizem chega. Num contexto de pressões e sanções injustificadas, o Brasil e o México uniram-se esta quarta-feira para reafirmar um princípio elementar: a soberania dos povos não se negocia.
Numa videoconferência de 40 minutos, Luiz Inácio Lula da Silva e Claudia Sheinbaum alinharam posições contra as ingerências de Washington nas políticas internas dos seus países. O eixo é claro: frente ao imperialismo, cooperação e diálogo entre os povos do Sul global.
Soberania e multilateralismo contra o diktat
Num comunicado divulgado pela Presidência brasileira, os dois líderes «reafirmaram a importância e o valor que atribuem ao fortalecimento e à preservação do multilateralismo, do direito internacional, da democracia e do princípio da não ingerência, particularmente no complexo contexto global atual». Palavras que soam a repúdio direto à política de blocos e à velha lógica de quem se arvora em dono do mundo.
A posição conjunta não caiu do céu. Há uma semana, o Governo brasileiro classificou como «tentativa de ingerência» a decisão de Washington de propor tarifas adicionais às importações brasileiras, invocando supostas práticas comerciais desleais. A investigação do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, iniciada em julho de 2025, teve origem numa denúncia da família Bolsonaro e toca em temas como trabalho forçado, desflorestação e o sistema de pagamentos automáticos. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil não se enganou: as sanções têm motivações eleitorais e são uma mancha na soberania do país.
Sheinbaum: «Quando se dita do exterior quem é culpado, já não é cooperação, é ingerência»
Do lado mexicano, a situação não é menos grave. Há dez dias, Claudia Sheinbaum denunciou uma tentativa de ingerência dos EUA, depois de o Ministério Público de Nova Iorque ter solicitado a detenção e extradição do governador de Sinaloa, Rubén Rocha, membro do partido governamental Morena. A isso soma-se uma operação não autorizada da CIA no México, em que morreram dois agentes norte-americanos.
«Quando se dita do exterior quem é culpado e quem não é, quando se procura pressionar as nossas instituições a partir de fora, quando se normaliza a ideia de que outro país pode intervir em assuntos que dizem respeito apenas aos mexicanos, já não estamos a falar de cooperação, estamos a falar de ingerência.»
As palavras da Presidente mexicana são um manifesto pela dignidade dos povos. E ressoam com força num continente que conhece bem o peso da dominação estrangeira.
Cuba: o embargo que estrangula um povo
Lula e Sheinbaum não esqueceram Cuba. Os dois mandatários reafirmaram a sua posição a favor do fim do embargo ao país caribenho e partilharam a preocupação com a grave situação humanitária que o bloqueio imperialista impõe à ilha há mais de seis décadas. Uma chaga aberta que a América Latina não pode continuar a tolerar.
Cooperação entre povos, não submissão a impérios
Na videoconferência, os dois líderes analisaram avanços concretos nos compromissos assumidos nos últimos meses. Destaque para a cooperação energética, que inclui a produção de biocombustíveis e a negociação de um acordo entre as petrolíferas estatais Pemex e Petrobras para a exploração de hidrocarbonetos em águas profundas. Os recursos do continente ao serviço dos povos, não dos lucros do Norte.
Os governantes concordaram ainda em aprofundar a revisão do marco jurídico bilateral comercial e solicitaram aos ministros dos Negócios Estrangeiros que agendem, o mais rapidamente possível, uma nova reunião da Comissão Binacional México-Brasil.
Enquanto Washington insiste em ditar regras e impor sanções, os dois maiores países da América Latina enviam uma mensagem clara: a soberania não é negociável, a cooperação entre os povos do Sul é o caminho, e a ingerência imperialista tem os dias contados.