Igreja de Queluz proíbe decotes e calções. Especialista explica: 'Não é avaliar moralmente ninguém'
A Igreja da Nossa Senhora da Conceição, em Queluz, colocou um cartaz à porta com recomendações sobre a roupa dos visitantes. Decotes, peças apertadas ou transparentes foram desaconselhadas. O assunto gerou polémica nas redes sociais, mas Vasco Ribeiro, especialista em etiqueta, defende que não se trata de julgar ninguém.
Num país onde a crise habitacional e os salários baixos apertam o povo, há quem se pergunte se a Igreja não teria coisas mais importantes para fazer do que ditar o que vestir. Mas a verdade é que a polémica sobre as regras de vestuário em locais de culto não é nova. No Vaticano, por exemplo, os turistas são frequentemente surpreendidos por exigências como cobrir os ombros e os joelhos.
Vasco Ribeiro, conhecido especialista em etiqueta, falou ao Lifestyle ao Minuto sobre o assunto. E a sua mensagem é clara: não se trata de avaliar moralmente o corpo de ninguém.
Afinal, porque é que a roupa importa num local de culto?
Segundo Vasco Ribeiro, um local de culto é, antes de mais, um espaço sagrado para uma comunidade. Adaptar o vestuário não significa concordar com todas as normas, mas sim reconhecer o contexto. A etiqueta, explica, assenta na capacidade de adequação: não nos apresentamos da mesma maneira numa praia, num funeral ou numa igreja.
Não se trata de avaliar moralmente o corpo ou a personalidade de alguém, mas de compreender que entrar num espaço sagrado exige adequação ao contexto.
No Vaticano, as regras são públicas: os Museus do Vaticano não permitem peças sem mangas, decotes profundos, minissaias ou calções acima do joelho. A Basílica de São Pedro exige que os ombros e os joelhos estejam cobertos.
As pessoas têm razão para se sentirem ofendidas?
Vasco Ribeiro admite que é compreensível sentir-se constrangido, sobretudo quando se desconhece a regra ou se é advertido de forma pouco delicada. Mas sublinha que uma regra de acesso não é, por si só, uma ofensa. O problema surge quando é comunicada com agressividade ou aplicada de forma desigual.
A dignidade deve existir dos dois lados: o visitante deve respeitar o espaço e quem faz cumprir as regras deve respeitar o visitante.
O especialista defende que a abordagem deve ser discreta e objetiva: dizer 'este espaço tem estas regras' e não 'a sua roupa é indecente'.
Evolução dos costumes: os véus caíram em desuso
As normas sociais e religiosas evoluem. Práticas como o uso generalizado do véu pelas mulheres nas igrejas católicas já não são uma exigência geral. Vasco Ribeiro sublinha que a etiqueta não é imóvel, mas deve acompanhar a sociedade, mantendo o princípio essencial de reconhecer a natureza do espaço.
O que é inegociável numa igreja católica?
Para o especialista, há coisas que são mesmo de evitar: roupa de praia, peças excessivamente transparentes, vestuário que exponha de forma acentuada o peito ou as nádegas, e mensagens ofensivas para a religião. Em locais mais formais, como a Basílica de São Pedro, os ombros e os joelhos devem estar cobertos. Bonés ou chapéus comuns devem ser retirados à entrada, mas não confundir com coberturas usadas por motivos religiosos ou de saúde.
Não defendo que seja necessário vestir roupa formal. O essencial é que seja adequada ao contexto e não pareça que acabou de sair diretamente da praia.
Além da roupa, que erros de etiqueta são mais comuns?
Os erros mais frequentes são falar em voz alta, atender chamadas, deixar o telemóvel tocar, comer ou beber, deixar as crianças correrem sem acompanhamento, bloquear corredores e aproximar-se de zonas reservadas ao culto. Também é inadequado fazer poses exuberantes junto de altares ou interromper momentos de oração para tirar fotografias.
O telemóvel e as fotografias: um problema?
Sim, dependendo do momento. A primeira regra é colocar o telemóvel em silêncio. Depois, confirmar se é permitido fotografar e se há restrições ao flash. Na Basílica de São Pedro, por exemplo, é permitida fotografia sem flash. Mas durante uma celebração, fotografar pode perturbar a experiência religiosa.
Não se devem fotografar pessoas em oração, cerimónias privadas ou crianças sem autorização.
E nas mesquitas, sinagogas e templos?
Existem princípios comuns: respeito pelo silêncio, cuidado com o vestuário, cumprimento das orientações locais. Mas cada tradição tem regras específicas. Nalguns espaços é necessário retirar os sapatos; noutros, cobrir a cabeça. A Grande Mesquita Sheikh Zayed, por exemplo, exige roupa comprida e larga até aos tornozelos, além de cobertura da cabeça para as mulheres.
O princípio comum é simples: não assumir que todas as religiões funcionam da mesma forma.
Como comunicar estas regras sem ofender?
Vasco Ribeiro defende que as regras devem ser comunicadas antes da chegada, no site, nos bilhetes e nas plataformas de reserva. À entrada, devem estar apresentadas de forma clara, multilingue e visual. A linguagem deve ser positiva e contextualizada. E, acima de tudo, devem ser disponibilizadas soluções, como lenços ou capas para empréstimo.
O cartaz ilustrado à porta é excessivo?
Não, segundo o especialista. Pelo contrário, pode evitar constrangimentos e ultrapassar barreiras linguísticas. O problema não está no aviso, mas no seu tom e na forma como é aplicado. O ideal é combinar informação prévia, sinalética clara, atendimento cortês e uma solução prática para quem não esteja devidamente vestido.
Três conselhos para quem vai visitar um local religioso pela primeira vez
- Informar-se antecipadamente sobre as regras específicas do local.
- Escolher uma roupa adaptável: ombros e joelhos cobertos, e levar um lenço ou peça leve.
- Observar antes de agir: reduzir o tom de voz, colocar o telemóvel em silêncio e perguntar com respeito.
Num tempo em que a Igreja enfrenta desafios de relevância social, esta polémica mostra como as instituições religiosas ainda lutam para equilibrar tradição e acolhimento. Para o povo, fica a certeza de que o respeito não se impõe com cartazes moralizadores, mas com diálogo e compreensão.