Matisse e Saint Laurent: quando a alta-costura abraça a pintura popular
Uma exposição em Nice junta 160 obras de Henri Matisse e Yves Saint Laurent para mostrar como a arte e a moda se misturam. Não é só luxo, é também uma história de gente que trabalha com as mãos.
Henri Matisse e Yves Saint Laurent nunca se encontraram. Quando o pintor morreu, em 1954, o futuro costureiro tinha apenas 18 anos. Separados por uma geração, um foi um dos pintores que mudou a arte, o outro transformou a alta-costura. Mas poucos artistas marcaram tanto a imaginação de Saint Laurent como o mestre francês da cor.
O que mostra a exposição em Nice?
A mostra Henri Matisse - Yves Saint Laurent. Le beau, la mode et le bonheur está patente até 28 de setembro no Museu Matisse de Nice. Reúne cerca de 160 peças, entre vestidos de alta-costura, pinturas, desenhos, têxteis, figurinos, acessórios e documentos de arquivo. É uma viagem pela criatividade de dois artistas que marcaram a cultura visual do século XX.
A exposição está dividida em sete capítulos, espalhados por dois pisos. Logo à entrada, uma frase de Yves Saint Laurent serve de guia:
“Quis tecer ligações entre a pintura e o vestuário, convencido de que um pintor é sempre contemporâneo e pode acompanhar a vida de cada um.”
Como a pintura de Matisse influenciou a moda de Saint Laurent?
Não se trata de copiar quadros. Saint Laurent reinterpretou as formas, os volumes e os padrões de Matisse. Um exemplo é o vestido azul de mangas volumosas pintado por Matisse, que inspirou um vestido de noite em tafetá criado por Saint Laurent em 1981. Outro é o chamado vestido “escocês” pintado em 1941, que deu origem a uma coleção de pronto-a-vestir em 1994, com pinceladas do pintor transpostas para seda estampada.
Matisse nasceu numa região ligada à indústria têxtil. Desde cedo, vestia as suas modelos com criações de estilistas como Paul Poiret, Elsa Schiaparelli ou Edward Molyneux. Colecionava tecidos e estampados, a que chamava a sua “biblioteca de trabalho”. Décadas mais tarde, Saint Laurent seguiu o mesmo caminho e criou a sua própria coleção de referências, os seus “fantasmas estéticos”.
Qual a importância social desta exposição?
Para além do luxo, esta exposição fala de trabalho, de mãos que criam. A moda e a pintura partilham referências, materiais e formas de criação. Mostra como a arte pode sair dos museus e entrar na vida das pessoas. Como dizia Saint Laurent:
“Matisse teve uma influência decisiva na minha utilização da cor porque, no início, eu acreditava apenas no preto. Demorei muito tempo a habituar-me à cor. Hoje, creio que a domino de forma brilhante.”
O que se pode ver na exposição?
Entre as obras em destaque estão Les Trois Soeurs (1917), um óleo sobre tela que mostra o interesse de Matisse pela moda. As três irmãs usam roupas contemporâneas, incluindo um casaco com padrão fúcsia criado por Paul Poiret. Há também Fleurs et fruits (1952-1953), de Matisse, e a colagem Jarre avec fruits (1981), de Saint Laurent, que mostram como os motivos frutícolas passaram da pintura para os bordados das coleções primavera-verão de 1992 e 2001.
Quando se sai do museu e se volta às ruas quentes de Nice, percebe-se que Saint Laurent nunca tentou vestir os quadros de Matisse. Fez algo mais difícil: transportou para a moda a sua forma de olhar para a cor, o desenho e o espaço. É essa conversa silenciosa entre pintura e alta-costura que torna esta exposição uma das mais interessantes do verão francês.