FOSSA Systems: 9,25 milhões para satélites de defesa
A empresa espacial FOSSA Systems levantou 9,25 milhões de euros para acelerar uma constelação de 140 satélites e desenvolver novas capacidades para defesa e segurança. A ronda, liderada pelo fundo espanhol Kibo Ventures e com participação da portuguesa Índico Capital Partners, eleva para quase 20 milhões o total captado desde a criação da empresa. A notícia chega num contexto de crescente militarização do espaço europeu, com pressões de gigantes como Airbus e Leonardo para consolidar o setor face aos EUA e à China.
O que vai fazer a FOSSA Systems com estes milhões?
Os fundos servirão para «reforçar a equipa, expandir a atividade comercial, desenvolver novas capacidades orientadas para os setores da Segurança e Defesa», ao mesmo tempo que a empresa avança com a implementação da sua constelação de 140 satélites de baixa órbita terrestre. A FOSSA Systems emprega atualmente cerca de 60 pessoas em Espanha e Portugal e já lançou 25 satélites, com o 26º previsto para as próximas semanas.
Julián Fernández, CEO e cofundador, garante que a integração vertical de toda a cadeia tecnológica permitiu «reduzir significativamente os custos dos satélites», abrindo porta a que «nações de menor dimensão, Ministérios da Defesa e empresas globais» possam definir «a sua própria estratégia espacial em apenas alguns meses». A promessa é clara: democratizar o acesso ao espaço. Mas para quê e para quem?
Defesa ou negócio? Os interesses por trás da ronda
A ronda contou ainda com a participação da Sociedade Espanhola para a Transformação Tecnológica (SETT), da SPARX e da WISeSAT. A Índico Capital Partners é já o investidor de referência da FOSSA. Stephan de Moraes, Managing Partner da Índico, sublinha que a empresa «espelha bem» a tese do fundo em deep tech e «infraestruturas críticas de longo prazo», destacando a «entrada no mercado de defesa japonês e a seleção para o programa DIANA da NATO».
Mas o que está realmente em jogo quando capital de risco português financia satélites para defesa? O setor da defesa tornou-se um dos mais apetecíveis para o capital privado. A seleção da FOSSA para o programa DIANA da NATO, dedicado a «tecnologias emergentes de dupla utilização», civil e militar, é reveladora. Portugal participa neste programa através da parceria entre a idD Portugal Defence e o Instituto Pedro Nunes. A NATO quer inovação, o capital quer rentabilidade. O casamento está feito.
A militarização do espaço europeu em contexto
Esta ronda não é um caso isolado. Na mesma semana, a Airbus e a Leonardo pressionaram Bruxelas para aprovar uma fusão pan-europeia no setor espacial com a Thales. O argumento? A consolidação é «essencial para competir com os norte-americanos e chineses». Juan López Santamaría, partner da Kibo Ventures, ecoa esta narrativa: «A Europa precisa de campeões tecnológicos capazes de reduzir as dependências em setores estratégicos.»
A linguagem da «soberania» e da «dependência» serve para justificar investimentos milionários num setor que, cada vez mais, se confunde com a indústria militar. Enquanto a Europa fala em «defesa» e «segurança», os orçamentos sociais continuam sob pressão e as classes populares pagam o preço da austeridade.
Quem paga a conta da militarização espacial?
Nove milhões e 250 mil euros para satélites de defesa. Quase 20 milhões desde o início. Num país onde os serviços públicos sofrem com subfinanciamento crónico, onde os trabalhadores lutam por salários dignos e onde a habitação se tornou um luxo, a pergunta impõe-se: quem define as prioridades? O capital de risco aposta na guerra, não no bem-estar. E os governos aplaudem.
A FOSSA Systems pode bem ser um «caso de sucesso» tecnológico. Mas o sucesso de quem? Dos povos da Europa, que precisam de saúde, educação e habitação, ou dos fundos de investimento que lucram com a indústria da defesa?
O que é o programa DIANA da NATO?
O programa DIANA (Defence Innovation Accelerator for the North Atlantic) é uma iniciativa da NATO dedicada ao desenvolvimento de tecnologias emergentes de dupla utilização, civil e militar. Portugal participa através da parceria entre a idD Portugal Defence e o Instituto Pedro Nunes (IPN). A FOSSA Systems foi selecionada para este programa, reforçando a sua ligação ao ecossistema militar transatlântico.
Quanto dinheiro já levantou a FOSSA Systems?
Com esta ronda de 9,25 milhões de euros, a FOSSA Systems eleva para quase 20 milhões de euros o total de financiamento captado desde a sua fundação. A empresa emprega cerca de 60 pessoas em Espanha e Portugal e já lançou mais de 25 satélites.