Síria e Turquia retomam plano de corredor energético que pode mudar a geopolítica mundial
O ministro dos Negócios Estrangeiros da Síria, Asaad al-Shaibani, reuniu-se esta quinta-feira com o homólogo turco, Hakan Fidan, para relançar a chamada Iniciativa Quatro Mares. O projeto, que parecia ter caído no esquecimento, promete transformar a Síria num centro energético entre o golfo Pérsico, o Cáucaso e o Mediterrâneo. E, para a Europa, pode ser a chave para fugir à dependência da Rússia e do Irão.
Numa altura em que o Médio Oriente arde com a guerra entre os EUA, Israel e o Irão, este corredor estratégico ganha uma importância redobrada. O Irão fechou o estreito de Ormuz, por onde passava um quinto do petróleo mundial, e os preços dispararam. As rotas alternativas nunca foram tão necessárias.
O que é a Iniciativa Quatro Mares?
Lançada pela Turquia em 2009, a Iniciativa Quatro Mares prevê a criação de um corredor que ligue quatro mares: o golfo Pérsico, o Mediterrâneo, o mar Negro e o mar Cáspio. A ideia é construir novos oleodutos e vias férreas que atravessem o Iraque, a Síria e a Turquia, criando uma rota mais curta e segura para o transporte de energia e mercadorias.
Para Asaad al-Shaibani, a Síria é o elo natural deste plano. A história e a geografia ditam que a Síria seja o nó mais curto e eficiente no mapa do comércio mundial
, afirmou em conferência de imprensa. O ministro sírio garantiu ainda que o projeto ferroviário que liga a Síria, a Turquia, a Arábia Saudita e a Jordânia está a avançar.
Uma tábua de salvação para a Europa
Especialistas ouvidos pela imprensa internacional sublinham que este corredor aumentaria a soberania energética da Europa. Ao reduzir a dependência do gás russo e do petróleo do golfo Pérsico, o Velho Continente ganharia margem de manobra face a Moscovo e a Teerão. Além disso, o projeto reforçaria a influência europeia no comércio global.
Mas não é só a Europa que sai a ganhar. Para a Síria, que emergiu de uma guerra civil devastadora, este plano é uma oportunidade de reconstrução e de reinserção na economia regional. As novas autoridades de Damasco, saídas dos antigos grupos rebeldes de inspiração islamita, querem normalizar relações com os vizinhos e acabar com as sanções internacionais herdadas do regime de Bashar al-Assad.
O fantasma de Israel e as ameaças à estabilidade
O caminho para este corredor está longe de ser pacífico. Israel continua a bombardear o sul da Síria e a ocupar territórios, numa operação que começou com a queda de al-Assad em dezembro de 2024. Hakan Fidan foi claro: Os ataques israelitas contra a soberania e a integridade territorial são a maior ameaça à estabilidade da Síria
. O chefe da diplomacia turca apelou à comunidade internacional para que se oponha à mentalidade de ocupação de Israel
.
Por outro lado, al-Shaibani apontou o dedo às milícias armadas que operam fora do Estado
nas fronteiras do país, numa alusão ao Hezbollah libanês, aliado do Irão. Para Damasco, estas forças são a principal ameaça interna à segurança.
E o estreito de Ormuz?
O bloqueio militar do estreito de Ormuz pelo Irão foi a gota de água que acelerou a procura de alternativas. Mas a Turquia, que tem servido de mediador no conflito, vê uma luz ao fundo do túnel. Hakan Fidan saudou a possibilidade de um regresso às negociações entre os EUA e o Irão, depois de Teerão e Omã terem anunciado um acordo para garantir a segurança do tráfego marítimo no estreito.
Esperamos que o cessar-fogo seja restabelecido e o estreito de Ormuz reaberto
, disse o ministro turco. Até lá, a Iniciativa Quatro Mares pode ser a única saída para um mundo que precisa desesperadamente de energia.
O que está em jogo é mais do que um simples corredor. É a reconfiguração do mapa energético global. E a Síria, contra todas as expectativas, quer estar no centro dessa mudança.