Fome Emocional: A ansiedade que o sistema nos serve no prato
Entre turnos exaustivos, salários que não chegam ao fim do mês e a pressão constante para produzir, o prato torna-se muitas vezes o único refúgio. Não é preguiça, nem falta de força de vontade. É a fome emocional, um fenómeno que afeta mais de um terço da população e que o nutricionista João Rodrigues denuncia no seu novo livro, Fome Emocional. Num mundo que nos exige sempre mais, a comida funciona como um analgésico para as feridas que a sociedade nos inflige diariamente.
A infância e a gramática do consumo
Desde cedo que nos ensinam que o conforto tem sabor a açúcar. O clássico se te portares bem, dou-te um gelado não é apenas uma frase inocente de um pai desesperado. É a fundação de uma gramática emocional que nos acompanha a vida inteira. A criança aprende que determinados alimentos são um prémio, algo que merece porque sofreu ou se calou.
A criança vai passar a associar o consumo de determinados alimentos a um prémio ou recompensa. Corre-se o risco de criar a ideia de que estes alimentos devem ser consumidos porque nós merecemos isso. Quando damos conta, o cérebro já criou esta associação entre o consumo e sensações positivas, que depois poderão vir a ser usadas para compensar momentos menos bons.
Assim, a indústria e a nossa própria educação constroem um ciclo vicioso. Comemos para abafar a frustração, a ansiedade e o vazio que o dia a dia nos deixa. E quando o fazemos, não estamos a ser fracos. Estamos apenas a responder a um mecanismo que nos foi implantado.
A biologia sequestrada pelo stresse
Durante décadas, a fome emocional foi tratada como um problema de comportamento, uma falha individual. A culpa era sempre nossa. Mas a ciência mostra outra realidade. O nosso cérebro não está isolado do corpo, e as nossas supostas fraquezas têm raízes biológicas profundas.
O stresse crónico, a precariedade e a incerteza do dia a dia alteram o nosso funcionamento cerebral. A comida, especialmente a processada, ativa os centros de recompensa do cérebro, libertando dopamina. É uma forma de automedicação num mundo que nos deixa doentes.
A comida acaba por ser uma forma externa, e em certa medida controlada por nós, que permite afetar a forma como nos sentimos naquele momento.
Rodrigues é claro: não nos tornámos prisioneiros da nossa biologia, mas os mecanismos biológicos alterados são um obstáculo difícil de ultrapassar. Exigem tempo e trabalho para ser revertidos, algo que o sistema raramente nos concede.
Normalizar o sofrimento é perigoso
Entre 30% e 40% da população sofre de fome emocional. São números escandalosos, mas que tendem a ser normalizados. Quando o sofrimento é tratado como rotina, deixamos de lhe dar a atenção devida. Deixamos de exigir soluções estruturais.
Não é normal termos a necessidade de nos refugiar emocionalmente na alimentação, muito menos se as escolhas alimentares forem nutricionalmente menos interessantes.
A culpa que sentimos depois de um episódio de ingestão compulsiva só alimenta mais stresse. O problema não é a nossa falta de caráter, é a magnitude de um fenómeno que a sociedade insiste em ignorar.
O ruído da indústria e a ilusão da cápsula
Nunca houve tanta informação sobre alimentação, mas também nunca houve tanta desinformação. O conceito de food noise explica como esta exposição constante transforma a comida numa obsessão ansiosa. A indústria lucra com a nossa confusão.
E quando o cansaço aperta, procuram-se atalhos. Os suplementos alimentares são o exemplo perfeito da lógica capitalista aplicada ao corpo: uma cápsula que promete resolver, sem esforço, o que décadas de maus hábitos e stresse criaram.
Cada vez mais há uma busca pelo instantâneo, pelo imediato, pelo que dá menos trabalho. Primeiro devemos trabalhar os nossos hábitos e rotinas alimentares, e só depois encarar o consumo de suplementos, se necessário.
Comer com consciência como ato de resistência
Num tempo em que as refeições são engolidas em frente a um ecrã, entre notificações e prazos, o mindful eating surge como um ato quase subversivo. Comer com consciência é valorizar o ato de nos alimentarmos, é sentir os cheiros, as texturas e os sabores. É recuperar o tempo que nos foi roubado.
Para João Rodrigues, comer com consciência é estarmos gratos por termos a oportunidade de nos alimentarmos e valorizarmos todo o processo que envolve o ciclo de vida dos alimentos. Numa sociedade que nos empurra para o automatismo e para o consumo rápido, parar para saborear uma refeição é, de facto, um pequeno mas poderoso ato de resistência.