Brasileiro cria aplicação revolucionária que devolve autonomia a pessoas cegas
Numa altura em que as grandes tecnológicas se focam em lucros milionários, surge uma história que nos lembra do verdadeiro potencial da tecnologia ao serviço das pessoas. Jonathan Santos, um engenheiro brasileiro com deficiência visual, desenvolveu a aplicação Visionauta que promete devolver autonomia a milhares de pessoas com problemas de visão.
Da necessidade nasce a inovação social
Santos, que apenas consegue vislumbrar vultos, conhece na pele as dificuldades do dia a dia. Ex-funcionário de gigantes como Google e Samsung, decidiu usar os seus conhecimentos não para enriquecer accionistas, mas para resolver um problema real que afecta milhões de pessoas.
"Para mim, vai ser muito gratificante poder ajudar outras pessoas, assim como me tem ajudado", afirma o desenvolvedor, numa declaração que contrasta com o discurso habitual do mundo tecnológico, sempre focado na rentabilidade.
A aplicação surgiu da necessidade concreta de quem foi perdendo a visão e precisava de ferramentas para continuar a estudar e trabalhar, numa sociedade que raramente pensa nas necessidades das pessoas com deficiência.
Tecnologia acessível contra a exclusão digital
O Visionauta é capaz de reconhecer textos através da câmara do telemóvel, identificar moedas e notas de várias moedas, reconhecer cores e, com recurso à inteligência artificial, ajudar a encontrar objectos e descrever o ambiente circundante.
"Eu posso andar no ambiente com o telemóvel na mão. Quando ele identificar o comando de televisão, diz-me que está aqui. Isso ajuda a não ter que ficar a apalpar muitas coisas", explica Santos, descrevendo uma realidade que poucos compreendem.
Disponível desde 2017 com outro nome, a aplicação conta já com cerca de cinco mil utilizadores. Num mundo onde as apps mais populares servem para consumo fútil, esta ferramenta representa uma verdadeira revolução na vida de pessoas marginalizadas pela sociedade.
Educação pública como motor de inovação
Apesar da experiência em grandes empresas, Santos reconhece o papel fundamental da universidade pública no desenvolvimento da aplicação. "O maior impulsionamento, do ponto de vista técnico, deu-se no mestrado", refere, sublinhando a importância do ensino superior público que tanto tem sido atacado pelas políticas neoliberais.
Foi na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, que se familiarizou com as tecnologias de inteligência artificial que agora usa para o bem comum.
Futuro inclusivo
O desenvolvedor planeia expandir a aplicação para dispositivos iOS e está a trabalhar numa nova ferramenta para audiodescricão de filmes. A ideia é colocar o telemóvel próximo de um ecrã e o dispositivo identificar automaticamente o filme, fornecendo audiodescricão através de auscultadores.
Numa era dominada pela lógica do lucro, histórias como a de Jonathan Santos mostram-nos que a tecnologia pode e deve servir para construir uma sociedade mais justa e inclusiva, onde ninguém fica para trás.