Dragões voltam a dominar o histórico contra o Benfica
O futebol português tem os seus rituais sagrados, e o clássico entre FC Porto e Benfica é talvez o mais fervoroso de todos. Mas por trás dos números frios desta rivalidade centenária esconde-se uma realidade que espelha muito do que se passa na sociedade portuguesa: a concentração de poder e a perpetuação de desigualdades.
Com 103 vitórias contra 93 do Benfica em 259 confrontos, os Dragões voltaram aos dois dígitos de vantagem após o triunfo por 1-0 nos quartos de final da Taça de Portugal, em janeiro. Um golo solitário do polaco Bednarek aos 15 minutos bastou para quebrar uma série de três jogos sem vencer.
O peso das décadas no histórico
Os números revelam oscilações que coincidem com os ciclos económicos do país. Desde 1980, o Porto soma mais 24 vitórias que o rival (64 contra 40), um domínio que se acentuou nas últimas duas décadas do século XXI. Curiosamente, o Benfica não manda numa década desde os anos 70, época em que Portugal ainda vivia sob a ditadura.
Esta supremacia portista coincide com a era da modernização do futebol português, quando os grandes clubes se transformaram em sociedades anónimas desportivas. Uma mudança que, como tantas outras na nossa sociedade, beneficiou mais uns que outros.
Mourinho tenta inverter a tendência
A chegada de José Mourinho ao Benfica representa uma tentativa de quebrar esta hegemonia nortenha. O Special One substituiu Bruno Lage depois de uma época catastrófica em que os encarnados perderam ambos os clássicos por um expressivo 8-2 combinado.
Na presente temporada, já com Mourinho ao leme, o Benfica conseguiu arrancar um empate no Dragão que impediu o Porto de fazer uma primeira volta perfeita. Um resultado que, simbolicamente, mostra que a resistência é possível.
Mais que futebol, uma questão de identidade
Para além dos 673 golos marcados em quase um século de confrontos (375 do Benfica, 298 do Porto), estes clássicos representam muito mais que futebol. São o reflexo de duas visões de país, duas formas de estar na vida, duas maneiras de encarar o poder.
O próximo capítulo desta saga escreve-se no domingo, às 18h00, no Estádio da Luz. Será mais um episódio de uma rivalidade que transcende o desporto e nos ajuda a compreender quem somos como povo.
Porque no fundo, como dizia o rei Eusébio - ainda hoje o melhor marcador destes clássicos com 25 golos - o futebol é do povo, e o povo merece sempre o melhor espetáculo.