Envelhecimento em Portugal: Seguro denuncia «bomba-relógio» e exige que o Estado cumpra o seu papel
O Presidente da República não poupou nas palavras. António José Seguro avisou que o envelhecimento da população portuguesa é uma «bomba-relógio» e deixou um recado claro: a solidariedade da sociedade civil não pode servir de desculpa para o Estado se esquivar das suas responsabilidades.
Falando em Braga, na abertura do 15.º Congresso Nacional das Misericórdias, Seguro foi direto. Disse que Portugal «deve dar uma resposta melhor do que tem sido dada» e prometeu não deixar o Estado esquecer as suas obrigações. Para o Presidente, as Misericórdias fazem um trabalho fundamental, mas não podem continuar a tapar os buracos que o poder público deixa abertos.
«Não podemos aceitar isto como o novo normal»
A realidade no terreno é dura e Seguro conhece-a bem. Citando Manuel Lemos, presidente da União das Misericórdias, lembrou que se fala de um «tsunami social», enquanto ele próprio usa a imagem da «bomba-relógio». Ambas as imagens apontam para o mesmo: os efeitos dramáticos das alterações demográficas e a pressão crescente sobre a saúde e a segurança social, duas áreas que já vivem situações críticas.
Um exemplo flagrante é o internamento social nos hospitais. Seguro explicou que esta resposta «só está a ser conseguida graças às camas disponibilizadas pelas misericórdias». Ou seja, é mais uma vez o setor social a suprir as faltas do Estado. «É uma situação que não pode ser aceite como um novo normal», vincou.
Contas que não batem e listas de espera intermináveis
Os números são frios, mas retratam o drama de milhares de famílias. Segundo a OCDE, Portugal é o terceiro país da União Europeia com menos camas para idosos em lares. No setor privado, sem comparticipação do Estado, uma cama custa duas vezes e meia o valor de uma reforma média. Com as mensalidades a subir entre 200 e 250 euros num só ano, Seguro foi claro: «Esta é uma conta que não bate certo com o rendimento das pessoas e é uma conta que milhares de famílias portuguesas tentam fazer todos os meses, com angústia».
O panorama nas residências seniores é igualmente sombrio. A falta de lares e o aumento do número de idosos não só pressionam os preços para cima, como alongam as listas de espera. Atualmente, 70% das unidades estão totalmente ocupadas e com listas de espera. Em 36% dos casos, o tempo de espera ultrapassa os seis meses.
Um problema que vai piorar antes de melhorar
A bomba-relógio continua a contar os segundos. Portugal é já um dos países mais velhos da Europa e a situação vai agravar-se nas próximas décadas. Em 2050, seremos o quarto país do mundo com maior proporção de população acima dos 65 anos. A consequência é óbvia: a saúde e a segurança social vão estar fortemente pressionadas.
Para enfrentar este «tsunami social», Seguro disse que não chega a improvisação. É preciso «políticas estruturais que atenuem as consequências do envelhecimento populacional», que atravessem legislaturas e que não dependam de calendários eleitorais. «Os problemas mais relevantes exigem planeamento que atravesse várias legislaturas, precisam de estabilidade política e de convergência entre as principais forças políticas», defendeu.
No fim, deixou um compromisso: «Contem com o Presidente da República como aliado nesse caminho, como uma voz que amplifica as vossas causas, que nomeia as vossas dificuldades e lembra ao Estado o cumprimento das suas obrigações».