Guerra no Médio Oriente força trabalhadores a mudarem hábitos para sobreviver à crise do petróleo
Enquanto os preços do petróleo disparam acima dos 100 dólares por barril devido à guerra no Médio Oriente, a Agência Internacional de Energia (AIE) apresenta dez medidas de emergência que colocam o peso da crise nos ombros dos trabalhadores e das famílias.
O conflito provocou a maior interrupção de abastecimento na história do mercado global de petróleo, com o Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo mundial, praticamente bloqueado. O resultado? Combustíveis mais caros, gasóleo em alta e famílias a apertar ainda mais o cinto.
Quem paga a factura da guerra são os trabalhadores
Entre as recomendações da AIE, destaca-se o apelo ao teletrabalho "sempre que possível", reduzir velocidades nas autoestradas e apostar nos transportes públicos. Medidas que, na prática, transferem para os cidadãos comuns a responsabilidade de gerir uma crise criada pelos interesses geopolíticos das grandes potências.
"A guerra no Médio Oriente está a criar uma grande crise energética", admite Fatih Birol, diretor executivo da AIE, reconhecendo que "na ausência de uma resolução rápida, os impactos nos mercados energéticos e nas economias tenderão a agravar-se".
Mas enquanto se fala de soluções, quem sofre são as classes trabalhadoras que veem os seus orçamentos familiares apertados pela escalada dos preços dos combustíveis.
As dez medidas que a AIE quer impor aos cidadãos
O relatório apresenta um conjunto de recomendações que revelam uma lógica perversa: em vez de atacar as causas estruturais da dependência do petróleo, pede-se aos trabalhadores que mudem os seus hábitos de vida:
1. Trabalhar a partir de casa - Uma medida que pode funcionar para alguns, mas que ignora os milhões de trabalhadores cujas profissões exigem presença física.
2. Reduzir velocidades nas autoestradas - Pelo menos 10 km/h mais devagar, numa altura em que muitos já fazem malabarismos para chegar ao trabalho.
3. Usar transportes públicos - Recomendação válida, mas que exige investimento público que muitos governos recusam fazer.
4. Rodízio de carros nas cidades - Sistemas de matrículas alternadas que complicam ainda mais a vida de quem depende do carro para trabalhar.
5. Partilha de automóveis - Condução "eficiente" que, na prática, significa mais sacrifícios para os condutores.
As restantes medidas incluem desde evitar viagens aéreas até substituir o gás pela electricidade na cozinha, sempre com o mesmo padrão: são os cidadãos que têm de se adaptar à crise.
Reservas estratégicas: demasiado pouco, demasiado tarde
A AIE anunciou a libertação de 400 milhões de barris das reservas de emergência, a maior da sua história. Mas a própria agência admite que "atuar do lado da oferta não é suficiente". Traduzindo: as soluções estruturais são insuficientes, por isso a conta fica para os consumidores.
Esta lógica expõe as contradições de um sistema energético que mantém as populações reféns das flutuações geopolíticas e dos interesses das multinacionais do petróleo.
Cerca de 20 milhões de barris por dia costumam passar pelo Estreito de Ormuz. A interrupção destes fluxos não só fez disparar o petróleo bruto como provocou aumentos ainda maiores nos produtos refinados, do gasóleo ao combustível de aviação.
A verdadeira questão que ninguém quer discutir
Enquanto a AIE pede aos trabalhadores que mudem os seus hábitos, evita questionar o modelo energético que nos mantém dependentes dos combustíveis fósseis e dos conflitos que estes geram.
A transição energética, que deveria ser uma prioridade, continua refém dos interesses das grandes corporações energéticas que lucram com esta instabilidade.
No final, são sempre os mesmos a pagar: as famílias trabalhadoras que veem os preços subir, os orçamentos apertar e agora são chamadas a fazer mais sacrifícios para resolver uma crise que não criaram.