Operação Influencer: Costa barrado no processo, PGR fala em lei, ex-primeiro-ministro fala em atentado
Lisboa, 2 de outubro de 2026 - O braço de ferro entre António Costa e o Ministério Público (MP) em torno da Operação Influencer conheceu esta sexta-feira um novo capítulo. A Procuradoria-Geral da República (PGR) voltou a bater o pé e explicou, sem rodeios, porque é que o atual presidente do Conselho Europeu não pode consultar o processo: a lei não lho permite. Já o ex-primeiro-ministro socialista, que se diz alvo de um atentado ao Estado de Direito, vê na decisão uma perseguição política.
Porque é que António Costa não pode consultar o processo?
A resposta da PGR, obtida pela agência Lusa, é fria e direta. O gabinete de Amadeu Guerra sublinha que os pedidos de consulta do processo apresentados por Costa foram analisados à luz da lei processual penal. E essa lei é clara: com o segredo de justiça interno concluído, mas mantendo-se o segredo externo, só podem consultar os autos o arguido, o assistente, o ofendido, o lesado e o responsável civil.
Ora, António Costa, que foi alvo de buscas e chegou a ser considerado suspeito no âmbito da investigação, não é formalmente arguido em nenhum dos inquéritos da Operação Influencer. E é exatamente por isso que o MP tem vindo a chumbar, por seis vezes, os pedidos do ex-líder do PS, apresentados entre novembro de 2015 e abril de 2024. Mesmo depois de março de 2026, quando o segredo de justiça interno deixou de se aplicar ao caso.
Nas entrelinhas, a PGR deixa claro que não há exceções para antigos primeiros-ministros. A lei é igual para todos, e quem não tem o estatuto processual adequado fica de fora. Ponto final.
Costa fala em atentado ao Estado de Direito, Ventura aproveita para atacar
António Costa não engoliu a decisão. Em resposta ao MP, o atual presidente do Conselho Europeu apontou o que considera ser um atentado ao Estado de Direito. Uma acusação pesada, que coloca o Ministério Público no banco dos réus da opinião pública.
Mas quem também não perdeu a oportunidade de se pronunciar foi André Ventura. À margem de um evento partidário em Aveiro, o líder do Chega veio desmontar a narrativa de vitimização do ex-primeiro-ministro. “O doutor António Costa, objetivamente, esteve, está envolvido numa teia que, venha ou não a demonstrar-se que ele próprio é culpado, acho que já ficou mais do que evidente que houve uma teia de prevaricação à volta dos negócios do lítio e do hidrogénio”, disparou.
Ventura foi mais longe e criticou a forma como o processo tem sido tratado pela comunicação social. “Parece que é a ele que nós ainda temos que lhe pedir desculpa”, ironizou, lembrando que outros arguidos, em anos anteriores, ficaram seis, sete, oito ou até dez anos sem ter acesso a nada. Uma comparação direta que coloca o dedo na ferida de um sistema que, para muitos, trata os poderosos com luvas de pelica.
O que está em causa na Operação Influencer?
Para quem não se lembra, a Operação Influencer rebentou a 7 de novembro de 2023, com a detenção de cinco pessoas, entre as quais Vítor Escária, então chefe de gabinete de António Costa. Estão em causa suspeitas de crimes económico-financeiros relacionados com três grandes negócios: a construção de um centro de dados em Sines, a exploração de lítio em Montalegre e Boticas e a produção de energia a partir de hidrogénio, também em Sines.
O caso teve um efeito político imediato e devastador: a queda do Governo de maioria absoluta do PS. Tudo porque, num comunicado da PGR, António Costa foi considerado suspeito, sem nunca ter sido formalmente constituído arguido. Uma situação ambígua que, até hoje, alimenta a polémica.
A PGR confirma que o caso, segmentado em diferentes inquéritos, continua sob investigação. E repete, sem margem para dúvidas: António Costa não é arguido em nenhum deles.
Um caso que divide o país
Este é um caso que divide Portugal ao meio. De um lado, os que veem na Operação Influencer uma caça ao ex-primeiro-ministro, movida por interesses escuros. Do outro, os que entendem que a justiça está, finalmente, a fazer o seu trabalho, sem olhar a caras.
O que é certo é que a novela está longe de terminar. Enquanto o processo continuar em segredo de justiça externo, Costa vai continuar impedido de consultar os autos. E a tensão entre o poder político e o poder judicial promete manter-se ao rubro.
Numa altura em que o país enfrenta graves problemas sociais e económicos, esta guerra de versões entre um antigo primeiro-ministro e o Ministério Público ocupa manchetes e alimenta conversas de café. Mas a pergunta que fica no ar é simples: até quando? E, sobretudo, quem vai pagar a factura desta novela que parece não ter fim?
Perguntas e respostas sobre o caso
António Costa é arguido na Operação Influencer?
Não. A Procuradoria-Geral da República confirma que António Costa não é arguido em qualquer dos inquéritos da Operação Influencer. Foi considerado suspeito, mas nunca formalmente constituído arguido.
Quantas vezes o MP rejeitou os pedidos de consulta de Costa?
O semanário Expresso noticiou que o Ministério Público rejeitou, por seis vezes, os pedidos de consulta do processo apresentados por António Costa, entre novembro de 2015 e abril de 2024.
O que está em investigação na Operação Influencer?
Estão em causa suspeitas de crimes económico-financeiros relacionados com a construção de um centro de dados em Sines, a exploração de lítio em Montalegre e Boticas e a produção de energia a partir de hidrogénio, igualmente em Sines.
O que diz André Ventura sobre o caso?
O líder do Chega afirmou que António Costa esteve e está envolvido numa teia de prevaricação à volta dos negócios do lítio e do hidrogénio, e criticou a forma como o processo tem sido noticiado, dizendo que parece que ainda é preciso pedir desculpa ao ex-primeiro-ministro.