Joaquim Monchique: «É difícil acreditar num amor para toda a vida»
O ator Joaquim Monchique, um dos rostos mais queridos do teatro e da televisão portuguesa, abre o coração numa entrevista ao Voz Livre. Aos 70 anos, depois de uma carreira brilhante e de um susto grave de saúde, fala do novo filme de Ruben Alves, da sua paixão por Lisboa e das lições que a vida lhe ensinou. E confessa: acreditar no amor para sempre é coisa difícil, mas não impossível.
Um sonho de 30 anos concretizado em «Santo António Casamenteiro»
O novo filme de Ruben Alves, «Santo António Casamenteiro», junta tradição, romance e comédia. Para Joaquim Monchique, que é um dos protagonistas, este projeto é a concretização de um sonho antigo. «Eu sou amigo do Ruben há 30 anos, desde o dia em que nos conhecemos numa festa. Ele disse: um dia vamos fazer um filme juntos e, passados 30 anos, esse sonho concretizou-se», conta o ator.
O que o convenceu foi o olhar do realizador. «O Ruben é estrangeiro, no fim de contas, tem uma costela portuguesa, mas é estrangeiro, é francês, e isso influencia o olhar que ele tem sobre Lisboa, sobre os casamentos de Santo António», explica Monchique, que tem uma ligação profunda às tradições da cidade. «Fui padrinho das marchas de Lisboa 25 anos, dos bairros quase todos de Lisboa. Sempre assisti ao desfile dos casamentos de Santo António e sempre fui lá desejar-lhes boa sorte, porque acho muito bonito quando alguém escolhe alguém para casar.»
A «disneyficação» de Lisboa vista pelo ator
O filme não esconde um olhar crítico sobre a cidade. Monchique alerta para a «disneyficação» das cidades, um fenómeno global que também atinge a capital portuguesa. «O público especialmente impactado será o de Lisboa. Os outros talvez não tanto, embora no mundo inteiro se note esta disneyficação das cidades», afirma. Ainda assim, o filme mostra o lado bonito de Lisboa, «esse lado visual, de tela, plástico».
O ator, que se define como «do imediato», do teatro e da televisão em direto, não esconde a admiração pelo amigo realizador. «O Ruben, além de ser meu amigo, é um grande diretor e embrulhou esta história de uma maneira maravilhosa.»
Um elenco extraordinário e o reencontro com Rita Blanco
Monchique trabalhou com «todas as grandes estrelas vivas», mas nunca tinha contracenado com Rita Blanco. «Foi bom», diz, mas faz questão de sublinhar a qualidade do elenco escolhido por Ruben Alves. «Há muito tempo que não via um filme com um elenco tão extraordinário, tão engraçado, com comediantes a fazer comédia, com grandes surpresas, com gente maravilhosa.»
Lisboa, os caracóis e o bitoque: as raízes de um lisboeta dos quatro costados
Nascido e criado em Lisboa, Monchique não esconde o amor pela cidade. «Adoro esta cidade. Já vivi fora, já trabalhei fora, mas estava sempre a desejar voltar a ter esta luz, aos bairros que eu conheço desde pequenino, às vivências, aos nossos hábitos, aos caracóis e ao bitoque», confessa. A colega Maria Rueff tem uma frase que o define na perfeição: «ela diz que eu sou Joaquim uma noite de Santo António!»
E explica a sua relação com o santo casamenteiro. «Não sou católico, mas tenho devoção ao Santo António. Não é bem devoção, é admiração por ser uma figura com tal carisma, como uma forma de explicar as coisas que sobrevive até aos dias de hoje.»
A ansiedade antes de estrear e o mistério da comédia
Depois de tantos anos de carreira, Monchique admite que ainda sente ansiedade antes de apresentar uma nova personagem. «Mais do que nervosismo é ansiedade. Nunca conhecemos bem as personagens. São sempre uma surpresa», revela.
E sobre o que é mais difícil, se fazer rir ou fazer chorar, não tem dúvidas. «É mais difícil provocar uma gargalhada. É um timing, é uma maneira de respirar. Às vezes, só por haver fatores externos, como uma tosse no público ou um barulho qualquer, estragam um riso», explica, sublinhando que «é um talento com que se nasce».
O amor para toda a vida: sorte ou destino?
Questionado sobre o amor eterno, o ator é sincero. «Eu acredito na paixão naquele momento da paixão e depois acredito que há quem tenha a sorte de encontrar uma alma gémea», diz, lembrando os avós, casados há mais de 70 anos. «Para mim é difícil acreditar, mas a vida traz-nos tantas surpresas, sabe-se lá.»
O AVC que mudou a sua vida: «Aprendi a dizer não»
Em 2024, durante a rodagem deste filme, Monchique sofreu um AVC e um enfarte no mesmo ano. Uma experiência que mudou a sua forma de ver a vida. «Aprendi que se deve gostar mais da vida», afirma. «Eu já tinha um filtro muito transparente na forma como encaro a vida, mas agora ainda está mais: não me deixar levar pelo discurso da desgraça, gozar mais a vida e saber que tem de se parar.»
O ator assume que o que aconteceu foi o resultado de uma vida sem pausas. «Nós temos uma mochila na vida, onde vamos carregando isso tudo, e depois há uma altura em que nos vai acontecer qualquer coisa. Pronto, foi desta vez. No final de tudo isto, aprendi a dizer não.»
Hoje, os cuidados são outros. «Agora tenho de tomar muitos comprimidos, que eram uma coisa que eu nunca tomava na minha vida. Alguns cuidados com a alimentação e, sobretudo, ter pensar que hoje é aqui. Amanhã, não sabemos», confessa. «Entrei no hospital, só acordei passado três dias e o que hoje sinto é que houve três dias que eu não vivi. O que quero agora é aproveitar todos os dias.»
O regresso ao Politeama e o desafio de continuar a encantar
Depois de 12 anos, Monchique regressa ao Teatro Politeama, uma casa que adora, para trabalhar com Filipe La Féria numa revista protagonizada por Marina Mota. «Para celebrar a vida e um género que é o mais difícil de todos, a revista», diz.
O que o desafia, depois de tantos anos de carreira, é simples. «O que me desafia sempre é ter o privilégio de saber que as pessoas saem de casa, compram o seu bilhete, às vezes um bilhete caro, para ir ver ao Monchique. Isso é extraordinário. Essa é a minha mochila. O desafio é fazer com que as pessoas tenham sempre uma noite de sonho, como eu tinha quando era mais novo e os meus pais me levavam ao teatro.»
Perguntas frequentes sobre Joaquim Monchique e «Santo António Casamenteiro»
Quando estreia o filme «Santo António Casamenteiro»?
O filme de Ruben Alves, com Joaquim Monchique e Rita Blanco no elenco, é uma comédia romântica que celebra as tradições lisboetas dos casamentos de Santo António. A data de estreia está prevista para o final de 2026.
O que aconteceu a Joaquim Monchique durante a rodagem?
O ator sofreu um AVC e um enfarte no mesmo ano, durante a rodagem do filme. Ficou três dias em coma e, depois da recuperação, mudou a sua forma de encarar a vida, aprendendo a dizer não e a aproveitar cada dia.
Onde vai Joaquim Monchique atuar depois do filme?
O ator regressa ao Teatro Politeama, em Lisboa, para uma revista de Filipe La Féria com Marina Mota como protagonista. É o seu regresso a esta casa depois de 12 anos.