Centeno arrasa Marcelo: «Não se dá posse a governos sem apoio parlamentar»
Mário Centeno, antigo ministro das Finanças e ex-governador do Banco de Portugal, não tem papas na língua. Numa conferência realizada este sábado em Lisboa, o economista criticou duramente a decisão de Marcelo Rebelo de Sousa de ter dado posse ao Governo da AD, liderado por Luís Montenegro, sem que este tivesse uma maioria parlamentar que o sustentasse.
«Não consigo entender como é que se dá posse a governos que não têm apoio parlamentar», disparou Centeno, citado pela agência Lusa. Para o antigo governante, a falta de uma base estável na Assembleia da República compromete a capacidade do executivo para avançar com reformas e deixa o país refém de uma instabilidade permanente.
Um governo frágil, um país refém
Centeno não se ficou pelas críticas. O antigo ministro de António Costa questionou a lógica de se pedir reformas a um governo que «não fez uma única reunião que se saiba» para garantir apoio parlamentar. «Devíamos ter percebido, nessa altura, que olhar para um Governo que não tem apoio parlamentar e depois pedir-lhe reformas é um contrassenso», sublinhou.
As declarações surgem num momento em que o país enfrenta uma legislatura marcada pela fragilidade política. Centeno foi claro: «O país não merece, o país não pode ter legislaturas desta natureza.» Na sua opinião, uma legislatura não pode ficar dependente da aprovação ou rejeição de uma única lei no Parlamento, como tem acontecido.
A comparação com Cavaco Silva e a «geringonça»
O antigo governador do Banco de Portugal não se ficou pelas críticas a Marcelo. Contrapôs o papel de Cavaco Silva em 2015, quando o então Presidente da República exigiu um acordo escrito para dar posse à chamada «geringonça», que juntava PS, PCP e BE. Para Centeno, essa decisão foi «provavelmente um dos maiores contributos» de Cavaco Silva «para a democracia em Portugal».
A ironia não passou despercebida: o mesmo Cavaco Silva, tantas vezes criticado pela esquerda, soube exigir garantias de estabilidade. Marcelo, pelo contrário, deu posse a um governo minoritário sem exigir qualquer compromisso escrito, deixando o país à mercê de uma instabilidade que se arrasta há meses.
O contexto: a queda de Costa e a rejeição de Centeno
Recorde-se que as eleições que levaram a AD ao poder foram convocadas na sequência da demissão de António Costa, em novembro de 2023, após as buscas em São Bento ao gabinete de Vítor Escária e a investigação do Ministério Público sobre os projetos de lítio e hidrogénio. Nessa altura, Costa terá sugerido a Marcelo a nomeação de Mário Centeno para chefiar o Governo, mantendo a maioria absoluta do PS. A proposta foi rejeitada pelo então chefe de Estado.
Centeno, que integrou os governos de Costa entre 2015 e 2020, não esqueceu o episódio. E associou a estabilidade política desse período ao crescimento económico e ao progresso registados, classificando-o «como o Governo mais reformista da história recente do país».
Estabilidade não se decreta, constrói-se na Assembleia
Para Centeno, a solução passa por devolver à Assembleia da República o papel central na construção da estabilidade. «Não é formar uma estabilidade política por decreto. Não. É pôr as 230 pessoas que foram eleitas deputados a gerar essa estabilidade no sítio onde ela tem que ser gerada, que é na Assembleia da República», afirmou.
O antigo ministro deixou ainda um aviso: a produtividade e o desenvolvimento do país exigem «qualificações, estabilidade financeira e política». Sem isso, Portugal continuará refém de uma governação frágil, incapaz de responder aos problemas reais das populações.
Uma lição para o futuro
As palavras de Centeno ecoam num país cansado de instabilidade e de promessas vazias. A crítica ao Presidente da República e ao Governo da AD não é apenas política, é também um alerta social: quem sofre com a falta de reformas são os trabalhadores, os jovens, os mais pobres. A esquerda tem aqui uma oportunidade de ouro para reafirmar a defesa do Estado social e das políticas que realmente mudam a vida das pessoas.
A pergunta que fica no ar é simples: até quando vamos aceitar governos que governam sem apoio, sem legitimidade parlamentar e sem coragem para enfrentar os problemas de fundo? A resposta, essa, está nas urnas e nas ruas.