Carnaval do Rio: Unidos de Viradouro conquista título enquanto homenagem a Lula resulta em descida de divisão
Numa noite que espelha as contradições do Brasil contemporâneo, a Unidos de Viradouro sagrou-se campeã do Carnaval carioca de 2026, enquanto a escola que ousou homenagear o presidente Lula da Silva foi castigada com o último lugar e a consequente descida de divisão.
Viradouro celebra a cultura popular autêntica
Com um desfile que prestou tributo ao Maestro Ciça, mestre de bateria e verdadeira lenda viva do samba, a escola de São Gonçalo obteve a pontuação máxima de 270 pontos. O espetáculo honrou Moacyr da Silva Pinto, figura emblemática que representa a resistência cultural das periferias cariocas.
A Viradouro, que soma agora quatro títulos (1997, 2020, 2024 e 2026), conseguiu nota 10 em praticamente todos os critérios de avaliação. O desfile trouxe de volta figuras como Juliana Paes e Paulo Barros, numa demonstração de como a cultura popular une gerações na luta pela preservação das tradições.
Um dos momentos mais impressionantes foi o carro alegórico de 25 metros que transportou 330 percussionistas pelos 700 metros da Sapucaí, transformando a passarela num verdadeiro manifesto sonoro da resistência cultural brasileira.
Perseguição política no sambódromo
Do outro lado da balança, a Académicos de Niterói pagou caro por ter escolhido homenagear a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva. Com apenas 264,6 pontos, a escola ficou em último lugar e será despromovida, numa decisão que levanta sérias questões sobre a neutralidade dos júris.
O samba-enredo contava a história de Lula desde a infância no Nordeste empobrecido até à Presidência da República, uma narrativa que incomodou profundamente os setores conservadores. Antes mesmo do desfile, a direita brasileira moveu céus e terra para impedir a homenagem, acusando-a de ser um "ato de campanha antecipado".
O próprio Lula assistiu ao desfile, mas a pressão foi tanta que ministros e altos funcionários se abstiveram de participar. Até a primeira-dama desistiu à última hora de desfilar num dos carros alegóricos.
Cultura popular sob ataque
Este episódio revela como a cultura popular brasileira continua a ser um campo de batalha ideológica. Enquanto se celebra a figura do Maestro Ciça, símbolo da autenticidade cultural, pune-se quem ousa contar a história de um presidente eleito democraticamente pelo povo.
O Tribunal Eleitoral rejeitou os pedidos para proibir o desfile, mas deixou no ar a ameaça de "futuras investigações". Uma forma subtil de intimidação que mostra como os poderes constituídos tentam silenciar as vozes populares.
A Unidos de Viradouro provou que quando o samba honra as suas raízes autênticas, o povo reconhece e premia. Já a punição à Académicos de Niterói deixa um gosto amargo: será que o Carnaval ainda é o espaço de liberdade que sempre foi, ou também ele sucumbe às pressões do conservadorismo?