A guerra silenciosa contra a alimentação infantil saudável
Numa sociedade onde o marketing alimentar domina as escolhas familiares, as nossas crianças tornaram-se reféns de uma indústria que lucra com a sua saúde. Chocolates de leite, bolachas light, hambúrgueres processados: produtos vendidos como nutritivos que, na realidade, representam uma ameaça ao desenvolvimento saudável dos mais pequenos.
A nutricionista Cláudia Viegas denuncia uma realidade preocupante: "Convictos de que estamos a mimar os nossos filhos com bons e nutritivos alimentos, acabamos por ser confrontados com práticas alimentares erradas". Esta perceção distorcida resulta de campanhas publicitárias milionárias que transformam veneno em medicina.
O engano da fruta processada
Quantas vezes vemos pais a comprarem purés de fruta em embalagens, pensando que fazem bem aos filhos? A verdade é cruel: um alimento processado nunca substitui ou equivale a um alimento no seu estado natural. Mesmo com o alegado conteúdo nutricional idêntico, o comportamento metabólico no organismo é completamente diferente.
Estes produtos já se encontram "mastigados", alterando o processo digestivo, a sensação de saciedade e a resposta glicémica. Em suma, como alerta Viegas, a fruta deve ser consumida como fruta, não como produto industrial.
A armadilha dos processados "infantis"
Hambúrgueres, douradinhos, salsichas, almôndegas: a lista de produtos dirigidos às crianças esconde uma realidade sombria. Crianças de três, quatro, cinco anos ou mais consomem alimentos "mastigados", impedindo o desenvolvimento da competência mastigatória e limitando drasticamente a sua cultura alimentar.
Estes produtos escondem ingredientes nocivos: sal em excesso, aditivos químicos e outros componentes sem qualquer interesse nutricional. Representam uma visão empobrecida da alimentação, quando esta deveria ser rica e diversificada.
O mito do chocolate "com leite"
A indústria alimentar é mestra na manipulação: vende chocolates "com mais leite do que cacau" como se fossem produtos lácteos. A comparação é reveladora:
Uma barrinha de chocolate de leite (12,5g) versus um copo de leite (200ml): o chocolate nunca substitui o consumo de leite nem contém uma quantidade relevante do mesmo. É puro marketing para enganar pais preocupados com a nutrição dos filhos.
A mentira das bolachas "saudáveis"
Light, sem açúcar, integrais: as bolachas reinventam-se constantemente para parecerem saudáveis. A realidade é que são todas iguais: se têm menos açúcar, têm mais gordura; se têm menos gordura, têm mais açúcar. O valor energético varia entre 400 a 500 kcal por 100g.
Três a quatro bolachas equivalem a um pão de 50g, mas a saciedade é incomparável. O pão tradicional, minimamente processado, sacia muito mais e por mais tempo do que as bolachas ultraprocessadas com índice glicémico elevado.
A resistência começa na cozinha
Num sistema que privilegia o lucro sobre a saúde pública, cabe às famílias trabalhadoras resistir. Durante o primeiro ano de vida, as crianças devem experimentar uma grande variedade de alimentos naturais: hortícolas, leguminosas, cereais, frutas, carnes, pescado, lacticínios.
Aos doze meses, a alimentação infantil deve igualar a familiar, assumindo um padrão alimentar saudável que privilegie alimentos de origem vegetal. Esta é a única forma de combater uma indústria que transforma a infância num mercado.
A luta pela alimentação saudável é também uma luta de classes: enquanto uns lucram milhões com produtos nocivos, são as famílias trabalhadoras que pagam o preço na saúde dos seus filhos. É tempo de dizer basta a esta exploração silenciosa.