Portugueses acreditam na vacina, mas andam às escuras sobre o que tomar
Quase toda a gente sabe que vacinar é bom. Mas quando se pergunta o quê, quando e porquê, a maioria dos portugueses fica sem resposta. Um estudo nacional mostra que a confiança na vacinação não passa de um princípio vago, sem tradução prática na vida real.
Os dados, divulgados esta quarta-feira, 7 de outubro, pelo Movimento dos Doentes pela Vacinação (MOVA), são claros: 94,4% dos inquiridos reconhecem os benefícios das vacinas, sobretudo a proteção contra doenças graves e a imunidade de grupo. Mas essa crença esbarra numa ignorância profunda sobre o que está recomendado para cada idade e condição de saúde.
O que os portugueses sabem (e não sabem) sobre as vacinas?
O inquérito, que ouviu 1.500 pessoas com 18 ou mais anos, com e sem doenças crónicas, entre maio e agosto de 2026, mostra que 63,9% não sabem quais as vacinas incluídas no Programa Nacional de Vacinação (PNV). Entre quem não tem doença crónica, a percentagem sobe para 76,4%.
Metade dos participantes também desconhece as vacinas recomendadas para a sua faixa etária ou condição de saúde. E quando se fala em vacinas para adultos fora do PNV, o buraco é ainda maior: 90,5% nem sabem que existem.
Vacinação: um ato de confiança cega, sem conhecimento
José Albino, do MOVA, não tem dúvidas: “A vacinação é um ato de proteção individual e coletiva e as pessoas sabem disso, como mostram os dados. Mas não é possível pedir que se protejam, e que protejam quem as rodeia, através da vacinação, quando lhes falta o conhecimento básico sobre quais as vacinas disponíveis.”
O problema não é falta de vontade. É falta de informação. E isso tem consequências práticas.
Porque é que os portugueses não se vacinam?
Entre quem não se vacina anualmente contra a gripe ou a covid-19, 38,8% dizem que não se sentem em risco. Metade não considera a vacinação sazonal uma prioridade pessoal, e entre os mais saudáveis esse valor dispara para 67,5%.
Há também quem esteja em atraso e saiba disso: 45% dos doentes crónicos com vacinas em atraso admitem o atraso, mas acham que não precisam de se vacinar. O medo de efeitos adversos (22,3%) e a falta de informação (16,1%) são as barreiras mais apontadas por quem reconhece haver obstáculos.
Médicos deviam falar mais de vacinas, sobretudo aos mais novos
O papel dos profissionais de saúde é decisivo. Enquanto 74,9% dos doentes crónicos dizem que o médico fala de vacinas nas consultas, essa percentagem cai para 43,3% entre os sem doença crónica. E entre os jovens dos 18 aos 35 anos, 21,7% confessam que o médico nunca toca no assunto.
Ora, se quem devia informar não informa, como é que as pessoas vão saber?
Vacinação em adultos: um deserto fora da gripe e da covid
Os números falam por si. À exceção da covid-19 (80,3%) e da gripe (53,3%), a toma de outras vacinas nos últimos cinco anos é residual: 7,5% para a pneumocócica, 4,9% para o HPV, 1,5% para o VSR e 1,3% para a Herpes Zóster.
Não admira que 74,9% nunca tenham ouvido falar de “hesitação vacinal” ou “fadiga vacinal”. Mesmo assim, 56,8% associam esses conceitos a problemas graves de saúde pública.
O que falta fazer? Alargar o PNV e informar, dizem os especialistas
O estudo, apresentado hoje em Lisboa no encontro “Vacinação ao Longo da Vida: Desafios e Oportunidades em Portugal”, promovido pela Associação Portuguesa de Pessoas com DPOC e outras Doenças Respiratórias Crónicas, fundadora do MOVA, deixa um recado claro aos decisores políticos.
“Este estudo mostra que há ainda muito a fazer quando se trata da vacinação. É urgente que se alargue, em nome da saúde pública, o PNV também à vida adulta, tal como já acontece na infância, e é imperativo o reforço da informação. Só com um programa estruturado, e não apenas com recomendações dispersas que poucos conhecem, se pode pedir às pessoas que assumam a responsabilidade de se vacinar e de proteger quem as rodeia”, conclui José Albino.
No fundo, a mensagem é simples: não se pode exigir que o povo se proteja quando o Estado e os profissionais de saúde não fazem a sua parte para o informar. A vacinação não pode ser um ato de fé. Tem de ser um ato de cidadania esclarecida.
Perguntas frequentes sobre a vacinação em adultos
Quais são as vacinas recomendadas para adultos em Portugal?
Além da gripe e da covid-19, o Programa Nacional de Vacinação inclui vacinas como a do tétano, difteria e coqueluche, e recomenda-se a vacinação contra a pneumocócica, HPV, VSR e Herpes Zóster para grupos específicos, dependendo da idade e condição de saúde.
Porque é que os portugueses desconhecem as vacinas recomendadas?
O estudo aponta para a falta de informação e a ausência de recomendação médica como principais causas. Menos de metade dos adultos sem doença crónica diz que o médico aborda o tema em consulta.
O que é a hesitação vacinal?
É o atraso na aceitação ou a recusa de vacinas, apesar da sua disponibilidade. Em Portugal, a maioria nunca ouviu falar do conceito, mas muitos associam-no a problemas graves de saúde pública.
O Programa Nacional de Vacinação vai ser alargado aos adultos?
O MOVA defende que sim, e que é urgente. O estudo mostra que as recomendações dispersas não chegam à população e que é preciso um programa estruturado, como já existe para a infância.