Há uma frase que se repete no consultório da psiquiatra Maria Moreno, vezes demais: “Eu gosto de dar aulas. O que já não aguento é tudo o resto.” É este o retrato que a médica traça dos professores portugueses, num artigo de opinião que dá voz a um cansaço que não cabe nos horários nem nas estatísticas. Os docentes chegam ao fim do dia esgotados, não por darem aulas, mas por tudo o que as rodeia: plataformas, relatórios, reuniões, burocracia em barda. E o que sobra para ensinar é cada vez menos.
O que dizem os números sobre os professores em Portugal?
Os dados mais recentes da OCDE, do relatório Education at a Glance 2025, mostram que o salário real médio dos professores do 1.º ciclo caiu 1,8% em Portugal entre 2015 e 2024, enquanto na média da OCDE subiu 14,6%. Mas, para Maria Moreno, o problema não se esgota nos salários. É um problema sistémico de um país onde o custo de vida dispara, os salários médios não acompanham e a classe média qualificada sente a margem a desaparecer.
Porque é que os professores estão esgotados?
Na consulta, a psiquiatra ouve relatos de professores que trabalham o dia inteiro e chegam ao fim com a sensação de que não fizeram o seu trabalho. O problema não é só a carga horária: são 40,5 horas semanais de trabalho, mas apenas 19,8 horas de ensino, contra 22,7 na média da OCDE. A diferença está no tempo gasto com burocracia, que rouba sentido à profissão.
O inquérito TALIS 2024 confirma: 79% dos professores portugueses do 3.º ciclo dizem que o excesso de trabalho administrativo é uma fonte importante de stress, uma das percentagens mais altas entre os países analisados.
Salários, burocracia e saúde mental: um problema de todos
Maria Moreno sublinha que este não é um problema exclusivo dos professores. É um retrato de um país onde o salário mínimo subiu 72% entre 2015 e 2025, mas o salário médio apenas 58%, e os preços das casas dispararam 180% no mesmo período. As famílias fazem contas e a folga desaparece. E isso tem consequências na saúde mental.
“Quando o trabalho é progressivamente substituído por trabalho sobre o trabalho, perde-se tempo. Mas perde-se também sentido.”
A autora do livro “Se estou bem, porque não me sinto bem” deixa um apelo claro: é preciso falar de salários, mas também perguntar quanto do tempo de um professor está, de facto, a chegar aos alunos. Porque de nada vale aumentar o ordenado se a profissão perde aquilo que a torna essencial: ensinar.
Perguntas frequentes sobre a situação dos professores em Portugal
Quanto ganham os professores em Portugal comparado com a OCDE?
Entre 2015 e 2024, o salário real médio dos professores do 1.º ciclo caiu 1,8% em Portugal, enquanto na média da OCDE subiu 14,6%, segundo o relatório Education at a Glance 2025.
Quantas horas trabalham os professores portugueses por semana?
Os professores a tempo inteiro reportam 40,5 horas de trabalho semanais, mas apenas 19,8 horas de ensino, contra 22,7 na média da OCDE. A diferença está no tempo gasto com tarefas administrativas.
O que causa mais stress nos professores portugueses?
Segundo o TALIS 2024, 79% dos professores do 3.º ciclo apontam o excesso de trabalho administrativo como uma fonte importante de stress, uma das percentagens mais elevadas entre os sistemas analisados.
