Piscina de ondas de 60 milhões em Madrid: luxo para poucos, sede para muitos
Enquanto Madrid enfrenta pressões crescentes sobre os seus recursos hídricos, a construção da maior piscina de ondas artificiais da Europa avança sem pudor. O complexo Gemswell Surf Madrid, erguido junto ao estádio Metropolitano, no distrito de San Blas-Canillejas, vai engolir água potável como se fosse um oásis num deserto. E o pior: parte do dinheiro vem de fundos europeus destinados à sustentabilidade.
O projeto, orçado em cerca de 60 milhões de euros, ocupa 23 mil metros quadrados e promete abrir portas em 2027. Mas os números do consumo são de fazer corar qualquer defensor do bom senso: a lagoa vai precisar de 30 mil metros cúbicos de água potável e poderá perder até 184 mil litros por dia durante o verão. No total, o complexo poderá gastar 42 mil metros cúbicos, o equivalente ao consumo doméstico de mais de 800 pessoas durante um ano e meio.
Água potável para surfar enquanto falta água para viver
O absurdo não fica por aqui. A legislação espanhola proíbe o uso de água reciclada para fins recreativos, o que significa que a piscina será abastecida com água potável do Canal Isabel II. Ou seja: água tratada, própria para consumo humano, vai ser despejada numa lagoa artificial para entretenimento de quem pode pagar.
A Plataforma Ecologista de Madrid já fez as contas e alerta que a evaporação anual poderá ultrapassar o volume total de água que cabe na piscina. Durante os meses quentes, a perda diária pode chegar aos 184 mil litros. É água a esvair-se no ar, literalmente, enquanto há bairros inteiros a debater-se com secas e restrições.
Fundos europeus para sustentabilidade? A ironia é pesada
A polémica agrava-se quando se olha para a origem do financiamento. O projeto recebeu 15,7 milhões de euros do Fundo de Resiliência Regional, alimentado pelos fundos Next Generation EU. O dinheiro foi canalizado através da Buenavista Infrastructure, empresa escolhida pelo Banco Europeu de Investimento (BEI) para financiar, citamos, projetos de desenvolvimento urbano e turismo sustentável.
Os movimentos ambientalistas não engolem a contradição. Como é possível justificar com verbas para a sustentabilidade um empreendimento que devora água potável a um ritmo alucinante? A pergunta fica no ar, enquanto as máquinas continuam a trabalhar no terreno.
Moradores contra o projeto: querem zonas verdes, não betão
Quem vive no distrito de San Blas-Canillejas também não está para brincadeiras. As associações de moradores contestam a construção pelo impacto que o complexo poderá ter na zona: mais tráfego, mais pressão sobre os acessos e serviços, e uma invasão de visitantes que ninguém sabe se o bairro aguenta.
Os residentes defendem que aquele espaço, que é terreno municipal, devia servir para equipamentos públicos e zonas verdes. Em vez disso, vão ter um empreendimento privado de luxo, pensado para quem tem dinheiro para surfar no meio da cidade.
Obras avançam em terreno com problemas legais
Há ainda uma nuvem jurídica por cima do projeto. O plano especial de ordenamento do território, criado pela Câmara Municipal de Madrid para regularizar o terreno cedido ao Atlético de Madrid, foi anulado. O clube recorreu, mas a incerteza mantém-se.
Vários grupos exigem a suspensão das obras, mas os responsáveis pela Gemswell Surf Madrid garantem que a decisão judicial não afeta a construção. Uma consulta ao sistema de planeamento urbano da Câmara indica, no entanto, que o terreno é abrangido pela decisão, como noticiou o El País.
Antonio Giraldo, geógrafo urbano e vereador socialista, citado pelo mesmo jornal, não tem papas na língua: Madrid devia afastar-se de projetos megalomaníacos altamente questionáveis e focar-se em intervenções públicas que cheguem a todos os bairros. Palavras sábias, mas que por enquanto parecem cair em saco roto.
Enquanto isso, a empresa defende-se, afirmando que todos os seus investimentos sempre cumpriram escrupulosamente as condições e os critérios de elegibilidade exigidos para a aplicação dos fundos. Claro, os critérios estão cumpridos. A questão é se os critérios fazem algum sentido.
O que está em jogo com esta piscina de ondas em Madrid?
Esta história não é apenas sobre uma piscina. É sobre prioridades. É sobre usar dinheiro público para servir interesses privados. É sobre desperdiçar água potável enquanto o planeta arde. E é sobre a lógica perversa de um sistema que chama sustentável ao que é tudo menos isso.
Os madrilenos, como os portugueses, conhecem bem o valor da água. Sabem o que é uma seca, o que são restrições, o que é ver o futuro a esvair-se. Por isso, esta polémica devia servir de alerta: enquanto houver quem pense que o luxo de poucos vale mais do que o bem comum de muitos, a luta continua.