Pilates de luxo no Parque das Nações: modalidade para ricos?
O Prescription, estúdio de pilates dinâmico, acaba de inaugurar o seu quarto espaço em Lisboa, desta vez no Parque das Nações. Numa altura em que os salários estagnaram e o custo de vida dispara, vale a pena questionar: será o pilates uma modalidade acessível ou mais um negócio para as elites?
Vanessa Motte, fundadora da marca, fala de "alta intensidade" e "comunidades", mas o que se esconde por trás desta expansão empresarial numa das zonas mais caras da capital?
Um negócio em crescimento numa cidade desigual
Em dois anos e meio, o Prescription passou de um estúdio em São Bento para quatro espaços em Lisboa, com abertura prevista no Porto em janeiro de 2026. "Estamos a manter-nos consistentes com a nossa identidade", afirma Motte, mas a realidade é que esta expansão acontece numa cidade onde muitas famílias lutam para pagar a renda.
A fundadora criou até uma "Prescription Academy", já com 60 pessoas formadas. Um programa que funciona como "estágio online e local", onde os formandos têm apenas um mês para fazer exames. Será esta a precarização do trabalho disfarçada de oportunidade?
Pilates: reabilitação ou negócio de luxo?
"O pilates foi criado como uma prática de reabilitação", lembra Motte, referindo as suas origens como "prescrição médica para resolver lesões". Joseph Pilates desenvolveu o método há mais de 200 anos para ajudar soldados feridos na guerra.
Hoje, o Prescription oferece seis modalidades diferentes: First, Signature Dynamic, Cardio, Advanced, Pre and Pos-Natal e Recovery. Até organizam eventos com DJ, porque "a música é um pilar muito importante do nosso ADN".
Mas enquanto o pilates original nasceu para curar, esta versão comercial parece mais focada em lucrar. "As pessoas geralmente voltam", admite a empresária, numa lógica puramente comercial.
Uma modalidade para quem?
Apesar de Motte defender que "pessoas de todos os níveis e de todas as idades são bem-vindas", a realidade é diferente. O perfil dos clientes revela muito: "cerca de 15% de homens" e "cada vez mais pessoas mais jovens".
A fundadora reconhece que existe "um estigma errado" em torno do pilates, mas será apenas uma questão de imagem? Ou será que os preços praticados tornam esta modalidade inacessível para a maioria dos trabalhadores portugueses?
Saúde mental ou marketing?
Motte insiste que o pilates "mudou a minha saúde mental durante a gestação" e fala de uma "comunidade incrível de mulheres grávidas". Criaram até um "grupo chamado Bebés Prescription onde as mães mais velhas trocam coisas".
Mas será que esta "comunidade" não é apenas mais uma estratégia de marketing para fidelizar clientes? Num país onde o Serviço Nacional de Saúde está em crise, vender saúde mental como produto de luxo levanta questões éticas importantes.
O pilates não é tendência, mas o negócio sim
"O pilates não é uma tendência", defende a empresária, argumentando que "existe há mais de 200 anos". Tem razão quanto à longevidade do método, mas a sua comercialização intensiva é claramente uma tendência dos tempos modernos.
As redes sociais "ajudaram a dar mais visibilidade", admite, numa altura em que influencers vendem estilos de vida inalcançáveis para a maioria. O "boom" do pilates coincide com o aumento das desigualdades sociais em Portugal.
Enquanto o Prescription se expande para o Parque das Nações e Porto, milhares de portugueses não têm acesso a cuidados básicos de saúde. Esta é a verdadeira questão que devíamos discutir: numa sociedade justa, a saúde e o bem-estar deveriam ser privilégios ou direitos?