Novos restaurantes: luxo para poucos enquanto salários não chegam
Enquanto os trabalhadores portugueses lutam para chegar ao fim do mês com salários que não acompanham a inflação, abrem mais 20 novos restaurantes e cafés pelo país. Uma realidade que espelha bem as desigualdades da nossa sociedade.
Em pleno dezembro, mês em que muitas famílias já fazem contas à vida para conseguir pôr a ceia na mesa, surgem estas "novidades gastronómicas" que mais parecem destinadas a quem pode dar-se ao luxo de experimentar sem olhar ao preço.
Lisboa concentra a oferta para turistas e privilegiados
A capital portuguesa volta a ser o epicentro desta nova vaga de estabelecimentos. O Sabor a España na Rua do Ouro, junto ao Elevador de Santa Justa, traz "típicos sabores espanhóis" numa zona onde os preços já afastaram há muito os lisboetas de menores recursos.
O Fernando, no Largo Conde-Barão, dedica-se à "alta gastronomia" com pratos como Polvo Crocante com Arroz de Coentros. Rodrigo Pereira, o chef, promete "cozinha portuguesa com um toque de inovação". Inovação que certamente não chegará ao prato dos que ganham o salário mínimo.
Também o Inverse by CR7, o sports bar do Pestana CR7 na Rua da Prata, estreia um "novo conceito". Cristiano Ronaldo, que acumula milhões enquanto muitos portugueses não conseguem pagar a renda, expande o seu império gastronómico.
Porto e arredores seguem a mesma lógica
No Porto, o cenário repete-se. O EZO na Rua da Meditação traz a "autêntica cozinha georgiana", enquanto o Rice Risoteria Urbano na Rua de Santa Catarina promete "tornar mais acessível" os risotos italianos, com preços que começam nos 7,90 euros. "Acessível" para quem, perguntamos nós?
O Zenith abre o seu segundo espaço na cidade, na Rua de Sá da Bandeira, prometendo ser "mais do que um restaurante: um ponto de encontro caloroso e inclusivo". Inclusivo, talvez, mas só para quem tem dinheiro no bolso.
Franchising internacional invade o país
A chegada de mais um 100 Montaditos a Massamá e a expansão da Street Smash Burgers para Almada mostram como as grandes cadeias internacionais continuam a colonizar o nosso território gastronómico, muitas vezes em detrimento dos pequenos estabelecimentos locais.
Em Braga, o Los Pepes traz tacos e nachos, enquanto a Taberna Londrina chega a Oeiras com as suas francesinhas. Sempre a mesma lógica: expansão de marcas que se dirigem a um público com poder de compra.
O contraste com a realidade social
Enquanto estas "novidades" se multiplicam, os dados oficiais mostram que muitas famílias portuguesas têm dificuldades em pagar as despesas básicas. A inflação nos produtos alimentares continua a pressionar os orçamentos familiares, mas o mercado da restauração parece viver numa realidade paralela.
Conceitos como o da Origem Cozinha Saudável no Areeiro, que promove "comida saudável", ou o Seventh Brunch no Parque das Nações, dedicado aos brunches, reflectem um estilo de vida que está longe de ser acessível à maioria dos trabalhadores portugueses.
A Swee na Rua Augusta até inova com "smash swees" (hambúrgueres com gelado), enquanto a Cinnamood vende cinnamon rolls entre 4,90€ e 5,90€. Preços que para muitos representam uma refeição completa em casa.
Esta proliferação de novos estabelecimentos gastronómicos, concentrados sobretudo em Lisboa e Porto, espelha bem as desigualdades crescentes na nossa sociedade. Enquanto uns podem experimentar novos sabores, outros fazem contas à vida para conseguir uma refeição digna.