Mundial 2010: Futebol conservador, revolta e a queda de Queiroz
O som ensurdecedor das vuvuzelas na África do Sul não conseguiu abafar a insatisfação popular. Em 2010, Portugal chegou ao seu terceiro Mundial consecutivo, mas a forma como lá chegou e o que mostrou em campo deixou uma sensação amarga. O futebol era insosso, conservador, e as críticas chovam sobre o estilo de Carlos Queiroz.
A caminhada penosa e a mudança de guarda
Portugal chegou ao Mundial via play-off. A passagem direta estava negada, o que forçou um duelo com a Bósnia e Herzegovina. Com duas vitórias pela margem mínima, 1-0, a seleção agarrou o bilhete para o torneio das vuvuzelas, da Jabulani e do 'Waka Waka'. Era o fim de um ciclo. Scolari já lá não estava, e Queiroz abraçava o projeto pela segunda vez, após a eliminação no Euro 2008. O futebol das quinas mudava de figura, com Cristiano Ronaldo assumindo o papel principal de um elenco que sofria para criar.
Os homens escolhidos para a batalha
Apesar do talento disponível, a lista de convocados não evitava o estilo cauteloso do selecionador. Estes eram os homens chamados por Queiroz:
- Guarda-redes: Eduardo (SC Braga), Beto (FC Porto) e Daniel Fernandes (Iraklis)
- Defesas: Bruno Alves (Zenit), Paulo Ferreira (Chelsea), Rolando (FC Porto), Ricardo Carvalho (Chelsea), Miguel (Valência), Ricardo Costa (Lille) e Fábio Coentrão (Benfica)
- Médios: Duda (Málaga), Pedro Mendes (Sporting), Miguel Veloso (Sporting), Pepe (Real Madrid), Raul Meireles (FC Porto), Ruben Amorim (Benfica), Tiago (Atlético de Madrid) e Deco (Fluminense)
- Avançados: Cristiano Ronaldo (Real Madrid), Liedson (Sporting), Danny (Zenit), Hugo Almeida (Werder Bremen) e Simão Sabrosa (Atlético de Madrid)
Da goleada histórica à seca ofensiva
O primeiro jogo contra a Costa de Marfim de Didier Drogba foi um retrato fiel do que estava para vir. Um futebol ofensivamente insípido, que se tornou a imagem de marca da equipa de Queiroz, resultou num 0-0 que desesperou os adeptos.
Curiosamente, a maior goleada de Portugal em fases finais de grandes competições surgiu no jogo seguinte, um 7-0 frente à Coreia do Norte. A equipa abriu o ativo aos 29 minutos e só parou o massacre aos 87. Os jogadores responderam à altura quando a exigência era clara.
Mas o que sobrou em excesso frente aos norte-coreanos faltou por completo contra o Brasil. Mais um empate sem golos selou a passagem aos oitavos de final no segundo lugar do grupo G.
A eliminação e a revolta no balneário
O sorteio não foi piedoso e colocou a futura campeã do mundo no caminho de Portugal. Espanha venceu por 1-0, com um golo de David Villa aos 63 minutos, roubando o sonho luso.
As opções táticas de Queiroz nesse e noutros jogos foram alvo de escrutínio intenso. A substituição precoce de Hugo Almeida gerou polémica. O ambiente azedou. O descontentamento era evidente, e a revolta partiu de quem mais valia em campo.
Quando questionado sobre as razões da eliminação, Cristiano Ronaldo não se calou e atirou a responsabilidade para o gestor da equipa.
Falem com o Carlos Queiroz.
A frase de CR7 ditou o fim da era. O balneário estava infetado, a revolta estava instalada, e a saída do selecionador revelou-se irrevogável. O futebol conservador tinha os dias contados.