Moldávia na mira de Putin: o plano secreto para desestabilizar a NATO e a UE
Uma investigação do New York Times, publicada este sábado, expõe um plano russo para usar a Moldávia como arma de arremesso contra a NATO e a União Europeia. Documentos confidenciais, obtidos pelo jornal norte-americano, revelam que Vladimir Putin terá dado ordens, no final de dezembro de 2025, para acelerar o que designou como o “colapso da NATO e da União Europeia por dentro”. E a Moldávia, pela sua posição estratégica, seria a peça central desse tabuleiro.
Moscovo nega tudo, como era de esperar. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, classificou as conclusões da investigação como “falsas e sem fundamento”. Mas os factos reunidos pelos procuradores moldavos e pelos serviços de informações ocidentais contam outra história. Uma história de campos de treino na Sérvia e na Rússia, de padres ortodoxos comprados para fazer campanha contra a Europa, e de uma operação massiva de manipulação eleitoral financiada por um milionário fugitivo.
Campos de treino na Sérvia e na Rússia: o que se passou?
No verão de 2025, cerca de 500 moldavos, na sua maioria jovens, receberam 400 dólares (345,81 euros) para participar num curso de quatro dias numa zona remota da Sérvia. O programa, orientado por agentes dos serviços de informações militares russos, incluía workshops sobre como “furar cordões policiais” e “incendiar edifícios”. Vídeos retirados dos telemóveis dos participantes mostram homens em camuflagem e coletes à prova de bala a treinar com espingardas de assalto.
Mas a Sérvia não foi o único destino. Mais de 100 jovens moldavos foram também a Moscovo, num acampamento supervisionado pelos mesmos serviços, onde praticavam o fabrico de engenhos incendiários e explosivos caseiros, e o manuseamento de drones com acessórios para fogo posto. Iuri Vitneanski, um ativista político moldavo, nega tudo: diz que o objetivo era criar “relações amigáveis e de cooperação” com a juventude política russa. As autoridades moldavas admitem que é possível que muitos participantes não soubessem do verdadeiro propósito do evento. Mas os procuradores não têm dúvidas.
Ilan Shor: o milionário que pagava manifestações e padres
O nome de Ilan Shor surge em toda esta teia. Este milionário moldavo-israelita, líder do partido pró-Kremlin Vitória, fugiu para a Rússia em 2019, depois de ter sido implicado num gigantesco escândalo bancário. Segundo a investigação, Shor financiou manifestações anti-Governo, pagou a ativistas para produzir conteúdo contra a União Europeia e até comprou padres ortodoxos.
Um grupo de cerca de cem padres visitou a Rússia no verão de 2024, onde assinou contratos que os declaravam “funcionários da Evrazia”, uma organização ligada ao Kremlin. Cada padre recebeu mil dólares (864 euros) para usar as missas para espalhar mensagens contra o Governo europeísta e apelar ao voto contra no referendo de 2024. O arquipresbítero de Orhei, Iulian Raţa, que participou na peregrinação, garante que nem todos os padres fizeram campanha contra a Europa, e acusa a Presidente Maia Sandu de assediar os que são “leais à Igreja Ortodoxa Russa”.
Uma operação em pirâmide para manipular eleições
A operação de Shor não se ficou pelos padres. Através do Telegram, os seus programadores criaram 240 chatbots para recrutar quase 99 mil pessoas. O esquema funcionava em pirâmide: na base estavam os recrutas, acima deles 35 mil intermediários, e no topo 1.200 gestores locais. O objetivo era influenciar as eleições presidenciais de 2024 e as legislativas de 2025.
Os documentos obtidos pelo New York Times mostram que 38 mil ativistas foram pagos ao longo de quatro meses em 2024, num total de 20 milhões de dólares (17 milhões de euros). Os registos, guardados numa nuvem pública, continham nomes, moradas e contactos de mais de 150 mil pessoas recrutadas para manifestações. Uma das mensagens, enviada através de aliados de Shor, instruía os manifestantes a “comparecer no edifício do conselho distrital com vassouras, como um adereço simbólico para 'varrer esse tipo de gente'”.
As coordenadas GPS da base de dados apontavam para perto do Centro de Inovação de Skolkovo, nos arredores de Moscovo. A pasta foi retirada do ar depois de o jornal contactar o programador.
A Rússia quer uma “repetição exata do cenário ucraniano”
Os anúncios partilhados entre os recrutas avisavam que a aproximação da Moldávia ao Ocidente levaria a “uma repetição exata do cenário ucraniano”. Para Stanislav Secrieru, conselheiro de segurança nacional da Presidente Maia Sandu, a Rússia investiu “recursos sem precedentes” no país, sobretudo nas eleições de 2024 e no referendo sobre a adesão à UE.
E não foi só manipulação política. Em outubro de 2024, três participantes num campo de férias na Bósnia foram detidos com componentes de drone e um livro intitulado “Cozinha Russa: o ABC do Terrorismo Caseiro”. Em março, um ataque russo com drones contra um posto de alta eletricidade na Ucrânia ocidental, que fornece energia a mais de 70% da Moldávia, provocou apagões no país.
Maia Sandu venceu a batalha, mas não a guerra
Apesar de tudo, o partido de Maia Sandu, o Partido da Ação e Solidariedade, venceu as eleições de 28 de setembro de 2025 com 50,2% dos votos e maioria absoluta. No dia da votação, a polícia deteve pessoas envolvidas nos acampamentos, algumas com engenhos incendiários. Hackers russos invadiram as plataformas da Comissão Eleitoral Central, mas o pior não se confirmou.
Para Mihai Lupascu, diretor da Agência Moldava de Cibersegurança, o país venceu a batalha. “Mas não vencemos a guerra”, sublinha. E tem razão. A Moldávia continua na linha da frente, entre a pressão russa e a promessa europeia. E a história ainda não acabou.
Perguntas frequentes sobre a interferência russa na Moldávia
O que revela a investigação do New York Times?
A investigação revela um plano russo para usar a Moldávia como plataforma para desestabilizar a NATO e a União Europeia, incluindo campos de treino, manipulação eleitoral e financiamento de ativistas e padres.
Quem é Ilan Shor e qual o seu papel?
Ilan Shor é um milionário moldavo-israelita, líder do partido pró-Kremlin Vitória, que financiou manifestações e ativistas contra o Governo europeísta, e que terá pago padres ortodoxos para fazer campanha contra a UE.
Como respondeu a Rússia às acusações?
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, negou as conclusões da investigação, classificando-as como “falsas e sem fundamento”.
Qual foi o resultado das eleições na Moldávia?
O partido da Presidente Maia Sandu venceu as eleições legislativas de 28 de setembro de 2025 com 50,2% dos votos, garantindo maioria absoluta.