Violência que atravessa gerações: o grito de Susana Amaro Branco contra o silêncio
Em “Sou uma Multidão Minúscula”, a escritora Susana Amaro Branco mergulha nas feridas que passam de mãe para filha, num país que ainda desvaloriza a violência doméstica. O livro, que saiu este ano, acompanha Margarida em dois momentos da vida: em 1971, quando a infância ainda a protege da brutalidade que se esconde no casarão da família, e em 1994, já viúva, mãe de dois filhos e com três empregos. A memória volta a encontrá-la, e o leitor é obrigado a perguntar-se: onde falham as instituições, quem julga sem saber, e o que resta quando o Estado não protege?
Uma história que nasce de um verso
O título vem de António Ramos Rosa, poeta que Susana considera indispensável. “Este verso já vivia comigo antes de imaginar o livro”, conta. “Percebi que era o título certo quando a protagonista, já adulta, começa a reagir com gestos que eram da mãe e de Elvira, repetindo-os, mantendo o ciclo vivo.” A multidão minúscula é a Margarida: banal, invisível, mas carregando dentro do peito todas as histórias, ensinamentos e traumas que a memória alimenta.
1971 e 1994: duas datas, a mesma sombra
Susana escolheu os dois anos por causa da lei. Em 1971, o Código Civil dizia que o marido era o chefe da família e que a mulher lhe devia obediência. Quem casara pela Igreja não podia divorciar-se. Elvira, a personagem que vive a violência nos anos 70, não tinha para onde ir. “Não se pode confundir falta de alternativa com submissão”, sublinha. Em 1994, já havia revolução e nova Constituição, mas o Código Penal ainda tratava os crimes sexuais como crimes contra os valores da sociedade, não contra as pessoas. “O que me interessou comparar foi o que está à volta dela: quem sabe e se cala, quem decide agir, a ideia de segredo público.”
“A legitimação da violência é assustadora”
Susana não acredita em fatalidades genéticas. “Não acredito que esteja no ADN e quero acreditar que conseguimos quebrar o ciclo, ainda que o caminho seja longo.” Mas avisa: o que se ensina em casa, muitas vezes por amor, fica cravado. “Uma mãe ensina à filha aquilo que a ajudou a aguentar-se e encara-o como uma conquista, mesmo que seja conformismo.” E dá números: a UMAR ouviu este ano oito mil alunos com uma média de 15 anos, e quatro em cada dez rapazes não consideram violência proibir o outro de vestir determinada roupa. “A legitimação de comportamentos violentos é assustadora. Em 50 anos quebrou-se muita coisa, e cada geração tem de voltar a fazer esse trabalho, sobretudo quando encaramos um retrocesso de valores.”
O que sobra quando o Estado falha?
Margarida chega a pensar em fazer justiça pelas próprias mãos. “Não lhe chamo loucura”, diz a autora. “É a velha ideia do contrato: o Estado retira-me o direito de agir e oferece-se para fazer justiça. Quando não cumpre, o que sobra?” O Observatório de Mulheres Assassinadas revela que em 80% dos femicídios havia violência anterior conhecida, muitas vezes com denúncia. “A violência doméstica é crime público desde 2000 e continua a ser desvalorizada.”
Escrever sem espetáculo, mas sem poupar o desconforto
Susana não quis um livro impressionista. “As cenas de violência partem de quem ouve e de quem vê o dia seguinte. Interessa-me mais o impacto na construção das personagens do que a descrição das pancadas.” Inspirou-se em Neige Sinno, autora de Triste Tigre, que conta os anos de abuso sem dar ao leitor uma história de superação. “Se choca? Claro. Mas há uma abordagem profunda sobre a mente do agressor.”
E se fosse em 2026?
A Margarida de hoje teria uma linha de apoio e a lei do lado dela. “Mas acrescentaria o telemóvel como extensão das personagens. As redes sociais amplificam a estupidez humana.” A aldeia passaria a prédio ou grupo de WhatsApp, “com a mesma gente que sabe tudo, ou pensa saber, e não diz nada, condenando nas costas”.
Dois finais, uma herança que não se interrompe
O livro tem dois finais: um para os otimistas, outro em suspenso. “Desconfio dos finais que arrumam tudo, servem para o leitor dormir descansado. Acredito em leitores que sabem somar dois mais dois.” No epílogo, passaram trinta anos e não sabemos o que aconteceu a cada personagem. “A Margarida também não sabe. Criamos os nossos filhos e, mais tarde, não mandamos na vida deles.” A herança emocional não se interrompe. Ou interrompe?
Uma honra chamada Rosa Montero
Rosa Montero aceitou escrever uma frase para a capa. “Leio-a há muitos anos. Foi com ela que percebi que a estrutura também conta a história. Ter o nome dela na capa é uma imensa honra.”
Próximos passos
Susana está a trabalhar num livro com protagonista masculino, pela primeira vez. “Estou numa fase de leitura e investigação mais intensa.”
“Sou uma Multidão Minúscula” já está nas livrarias.