Jovens do Tâmega e Sousa vão ter voz nas decisões políticas. Mas será que vão ser ouvidos?
Num país onde a juventude é muitas vezes empurrada para segundo plano, a região do Tâmega e Sousa resolveu dar um passo em frente. O projeto CRJ+ quer meter os jovens a falar e os políticos a ouvir. Mas, como sempre, o diabo está nos detalhes.
A Comunidade Intermunicipal (CIM) do Tâmega e Sousa e a APPJuventude uniram-se para lançar o CRJ+, um programa que promete capacitar técnicos, envolver miúdos e miúdas na definição de políticas públicas e, lá mais para a frente, criar uma estrutura intermunicipal de participação juvenil. O protocolo foi assinado a 17 de julho, em Penafiel, entre Nuno Fonseca, presidente do Conselho Intermunicipal, e Hilário Matos, presidente da APPJuventude. O projeto é financiado pelo Erasmus+ e vai decorrer até 2027.
A ideia é bonita no papel. Durante dois anos, os 11 municípios da região – Amarante, Baião, Castelo de Paiva, Celorico de Basto, Cinfães, Felgueiras, Lousada, Marco de Canaveses, Paços de Ferreira, Penafiel e Resende – vão receber uma série de iniciativas. Técnicos municipais vão ter 80 horas de formação sobre políticas de juventude, participação democrática e educação não formal. Os conselhos municipais de juventude vão ser reforçados. E os jovens vão ser chamados a ser cocriadores, facilitadores e avaliadores. Tudo muito bonito, mas a pergunta que fica é: vão mesmo ser ouvidos?
O programa inclui a Academia CRJ, as Caravanas CRJ e os Laboratórios CRJ. A ideia é levar o projeto aos locais onde os jovens estão, em vez de esperar que eles apareçam. E há uma atenção especial aos que costumam ficar de fora: jovens de zonas rurais, do ensino profissional ou com menos oportunidades. Mas, num país onde a participação jovem é muitas vezes uma formalidade, a verdadeira prova será ver se as propostas saem do papel.
O CRJ+ promete também criar uma Comissão Intermunicipal de Juventude, uma estrutura permanente para articular jovens, conselhos municipais, organizações juvenis e decisores locais. E, para não deixar ninguém na ignorância, o projeto prevê mecanismos de devolução e acompanhamento. Ou seja, os jovens vão saber o que aconteceu às suas ideias. Se forem ignoradas, pelo menos sabem porquê.
Os promotores garantem que o projeto segue os padrões de qualidade do Erasmus+, com processos inclusivos, ambientes seguros e metodologias participativas. E esperam que o legado fique para além de 2027, com metodologias que possam ser replicadas noutros territórios. Mas, como sempre, o que interessa é o que vai acontecer na prática. Porque de boas intenções está o inferno cheio.
Fotografia: CIM do Tâmega e Sousa