Morreu Emílio Aragonez, a voz que durante décadas falou aos guardenses pela Rádio Altitude
O jornalista e radialista Emílio Aragonez morreu hoje, a poucos dias de completar 92 anos. Durante décadas, foi uma das vozes mais populares das emissões em onda média feitas a partir da Guarda, a cidade mais alta de Portugal. Mais do que um locutor, foi um serviço público com microfone, um homem que deu a cara quando outros se calavam e que fez da rádio uma arma de proximidade e de denúncia.
Das ourivesarias aos estúdios: uma vida construída do zero
Nascido em Portalegre a 21 de setembro de 1934, Emílio Aragonez chegou à Guarda com apenas cinco anos. A vida não lhe deu mordomias. Aos onze anos, começou a trabalhar na Ourivesaria Correia, na Guarda. “Fui para lá ganhar 80 escudos por mês e passados dois meses fui aumentado para cem”, recordava. As aulas no Liceu ficaram para trás, incompatíveis com o trabalho. O estudo passou a ser coisa da noite, no Colégio de S. José, na Escola Comercial e Industrial e na Escola dos Gaiatos.
Aos dezoito anos, abriu o primeiro estabelecimento comercial na Rua 31 de Janeiro. Três anos depois, mudou-se para a Rua do Campo, no antigo espaço da Espingardaria Sport. A relojoaria e a ótica foram o seu ofício durante anos, mas a paixão pela rádio falou mais alto. Aos dezanove anos, começou a colaborar com a Rádio Altitude, no início da década de cinquenta. “Foi aberto concurso para pessoas externas ao Sanatório, concorri e fui admitido. Para mim era um desafio”, contava. Trabalhava de dia, e à noite apresentava discos pedidos. “Eram imensos”, lembrava.
Uma rádio feita de solidão, pobreza e coragem
Nos primeiros tempos, partilhou o estúdio com doentes internados no Sanatório Sousa Martins. O medo da tuberculose afastava a cidade deles. “Havia, naturalmente, muito receio deste contacto com os doentes”, dizia. E a pobreza era visível. “Recordo-me de haver largas dezenas de pessoas que se dirigiam ao Lactário para obterem o leite destinado à alimentação dos filhos; iam buscar a sopa à Cozinha Económica. Aos dias de mercado, sobretudo, apareciam muitos rapazes e raparigas descalços e isso já diz muito sobre a realidade social”, descrevia.
As emissões eram à noite, e depois passou a haver espaço ao almoço. Os programas de discos pedidos eram um sucesso absoluto. “Eram tantos os pedidos e o espaço tão reduzido que era colocado um disco num dia e outros em programas posteriores. Por vezes, para se ouvirem quatro dedicatórias tinha de se esperar um mês”, contava.
Censura, PIDE e o 25 de Abril: a rádio como trincheira
Até ao 25 de Abril de 1974, a polícia política estava sempre atenta. Emílio Aragonez desvalorizava a interferência. “As notícias que eram transmitidas, nos primeiros tempos, eram baseadas nos jornais e estes já tinham passado pela censura”. Ainda assim, foi chamado à PIDE por duas vezes. Uma delas por causa de um disco gravado em França, de uma voz portuguesa, “já não sei se era do Zeca Afonso ou do Adriano Correia de Oliveira”.
Depois da revolução, a estação viveu dias de agitação. “Alguns dias após a data da revolução cheguei a estar 24 horas sem poder sair da Rádio, por imposição do MFA, onde esteve uma força militar comandada pelo alferes Pardalejo”, recordava.
O improviso como ofício e a rádio como serviço público
Emílio Aragonez tinha um dom: o improviso. Na década de setenta, quando Marcelo Caetano se deslocou a Manteigas, houve um atraso de mais de uma hora. Sem meios para desfazer a ligação, teve de segurar a transmissão sozinho. “Tive de aguentar a transmissão, recorrendo apenas a duas curtas entrevistas. O resto do tempo falei de Manteigas, da Serra, das potencialidades turísticas e de outras informações e descrições que fui considerando oportunas”.
Quando a neve cobria a cidade, a rádio abria mais cedo. “Era a partir daí que praticamente se comandava a cidade. Era um trabalho de autêntico serviço público, com informações sobre os vários estabelecimentos de ensino, circulação nas estradas, funcionamento dos serviços públicos. Ouvir o Altitude era essencial”.
Uma voz que entrava pelas casas das pessoas
A sua voz aquecia as noites guardenses. “Diziam-me que a minha voz era agradável e depois, também pelo que me é dito, tinha uma maneira muito peculiar de falar. Isto começou, realmente, nos programas da noite, quando a cidade precisava de companhia e a companhia era a rádio. Foram anos, anos e anos com a minha voz a entrar pela casa das pessoas”.
Não se calava diante dos problemas. “Eu dei sempre a cara, mesmo sabendo que iria sofrer dissabores; não só eu como a minha família”. Sem arrependimentos, garantia.
O legado de um homem que viveu para a rádio
A Rádio Altitude foi “praticamente uma vida toda. Uma pessoa que entra para ali aos 19 anos e fica lá até aos 68 obviamente que representa tudo”. “Esqueci-me muitas vezes que tinha família, esqueci-me dos amigos e vivia para o Altitude. Era tudo para mim!”, confessava.
Há dois anos, foi protagonista da curta-metragem “Discos Pedidos”, regressando aos estúdios da sua rádio. Emílio Aragonez era uma memória viva da Guarda, das suas estórias e tradições. Um homem igual a si próprio, referência de um tempo em que as ondas hertzianas eram laços de solidariedade com a cidade e uma vasta região. Até sempre, Amigo Aragonez.
Quem foi Emílio Aragonez?
Emílio Aragonez foi jornalista e radialista, ligado durante quase cinco décadas à Rádio Altitude, na Guarda. Nasceu em Portalegre em 1934 e morreu a 15 de setembro de 2026, poucos dias antes de completar 92 anos.
Qual foi o papel de Emílio Aragonez na Rádio Altitude?
Foi locutor, repórter e animador de programas de discos pedidos. Começou a colaborar aos 19 anos e ficou até aos 68, tornando-se uma das vozes mais reconhecidas da região.
Como lidou Emílio Aragonez com a censura e a PIDE?
Foi chamado à PIDE por duas vezes, nomeadamente por causa de um disco de música portuguesa gravado em França. Apesar da vigilância, manteve sempre a sua postura e os seus princípios.
O que representou a Rádio Altitude para a Guarda?
Foi um serviço público essencial, sobretudo em dias de neve, quando a rádio abria mais cedo para informar sobre escolas, estradas e serviços. Era a voz que comandava a cidade.