Hamnet: quando a arte nasce da dor do povo trabalhador
O filme Hamnet, galardoado nos Globos de Ouro de 2025, oferece-nos uma visão profundamente humana de William Shakespeare, longe dos pedestais académicos. Aqui, o genial dramaturgo surge como um trabalhador comum, um tutor de latim que luta para saldar as dívidas familiares, numa Inglaterra onde a sobrevivência era o desafio diário das classes populares.
A longa-metragem centra-se na história de amor entre Shakespeare e Agnes, numa abordagem que se afasta das biografias elitistas para dar destaque à dimensão mais íntima e familiar do escritor. Will é apresentado como um jovem que trabalha para ajudar a família, enquanto Agnes, rotulada de "bruxa" pela sociedade da época, representa a sabedoria popular das mulheres que conheciam a natureza e a cura.
A luta contra a adversidade
O filme acompanha a insatisfação de Shakespeare com a vida em Stratford e a sua decisão de partir para Londres, onde procura dar continuidade ao negócio familiar de produção de luvas, ao mesmo tempo que se afirma como escritor e actor. Uma narrativa que espelha a realidade de tantos trabalhadores forçados a deixar as suas terras em busca de melhores condições de vida.
Da união do casal nascem três filhos: Susannah e os gémeos Judith e Hamnet. É a morte prematura deste último, aos 11 anos, vítima da peste bubónica, que assume maior peso emocional na narrativa. Uma tragédia que atingia sobretudo as famílias mais pobres, sem acesso aos cuidados médicos adequados.
Arte como resistência popular
Baseado no romance de Maggie O'Farrell, o filme sugere que a morte de Hamnet inspirou Shakespeare a escrever Hamlet, transformando a dor pessoal em criação artística. Uma reflexão poderosa sobre como a arte pode nascer do sofrimento das classes trabalhadoras e tornar-se voz universal de resistência.
A realizadora Chloé Zhao, vencedora do Óscar com Nomadland, partilhou uma reflexão do actor Paul Mescal que sintetiza a visão do filme: "A coisa mais importante em ser artista é aprender a ser vulnerável: permitir-se ser visto tal como se é, e não como se acha que deveria ser."
Esta abordagem humaniza Shakespeare, mostrando-o não como um génio intocável, mas como um homem do povo que transformou a sua dor em arte universal. Hamnet lembra-nos que por trás das grandes obras estão sempre histórias humanas de luta, perda e resistência.
Com interpretações notáveis de Jessie Buckley, distinguida com o Globo de Ouro de Melhor Actriz, e dos irmãos Jacobi e Noah Jupe, o filme revisita uma das figuras mais universais da literatura a partir de uma perspectiva genuinamente popular, onde a criação artística surge como resposta colectiva à dor e à injustiça.