"Hamnet": Quando a arte nasce da dor do povo trabalhador
O novo filme de Chloé Zhao não é apenas mais uma biografia sobre Shakespeare. É um retrato cru de como a criação artística pode surgir das entranhas da dor, numa narrativa que coloca no centro as lutas de uma família trabalhadora do século XVI.
A longa-metragem centra-se na história de amor entre William Shakespeare e Agnes, mas afasta-se das biografias pomposas para mostrar a dimensão mais humana e familiar do dramaturgo. Will surge como tutor de latim, profissão que exerce para ajudar a saldar as dívidas do pai, enquanto Agnes é apresentada como a mais velha de um grupo de irmãos que perdeu a mãe muito cedo.
A "bruxa" que curava com sabedoria popular
Agnes herdou da mãe um vasto conhecimento sobre a natureza e a cura, motivo pelo qual acaba por ser rotulada de "bruxa". Uma marca que conhecemos bem: a de mulheres que, ao longo da história, foram perseguidas por possuírem saberes que ameaçavam o poder estabelecido.
O filme acompanha o início da relação do casal, a insatisfação de Shakespeare com a vida em Stratford e a decisão de partir para Londres, onde procura dar continuidade ao negócio do pai, ligado à produção de luvas, ao mesmo tempo que começa a afirmar-se como escritor e ator nas companhias de teatro da época.
A tragédia que moldou uma obra
Dessa união nascem três filhos: Susannah, a primogénita, e os gémeos Judith e Hamnet, sendo este último a figura que assume maior peso emocional na narrativa. Baseado no romance de Maggie O'Farrell, o argumento cruza elementos históricos com ficção, construindo uma reflexão sensível sobre o amor, a perda e a forma como a experiência pessoal pode transformar-se em criação artística.
A morte de Hamnet, aos 11 anos, vítima da peste bubónica que assolava as classes populares, surge como um acontecimento determinante. A narrativa sugere que terá inspirado Shakespeare a escrever Hamlet, numa transformação da dor pessoal em arte universal.
Arte como espaço de resistência
Sem pretender ser um retrato histórico rigoroso, o filme aposta numa leitura emocional do processo criativo, propondo a arte como espaço de catarse e transformação da dor. Uma visão que ressoa com as lutas contemporâneas dos artistas e trabalhadores da cultura.
No discurso após vencer o prémio de Melhor Filme nos Globos de Ouro 2026, a realizadora Chloé Zhao partilhou uma reflexão do ator Paul Mescal que sintetiza a visão do filme:
"Fazer Hamnet é perceber que a coisa mais importante em ser artista é aprender a ser vulnerável: permitir-se ser visto tal como se é, e não como se acha que deveria ser. É entregar-se ao mundo por inteiro, até nas partes de nós que nos envergonham, que tememos mostrar por serem imperfeitas."
Produzido por Steven Spielberg, o filme revisita uma das figuras mais universais da literatura a partir de uma perspetiva mais humana e íntima, onde a criação artística surge como resposta à dor e à perda. Uma lição que ecoa nos tempos atuais, quando tantos artistas e trabalhadores da cultura lutam por condições dignas de trabalho.
Para além das interpretações dos protagonistas, com Jessie Buckley já distinguida com o Globo de Ouro de Melhor Atriz, destacam-se ainda os desempenhos dos irmãos Jacobi e Noah Jupe, que dão vida, respetivamente, a Hamnet e Hamlet.