Exame de Português favoreceu quem comprou manual da Leya
O exame nacional de Português deste ano criou dois pesos e duas medidas. Quem comprou um manual de preparação da editora Leya levou vantagem clara sobre os restantes estudantes, graças a uma pergunta que replicava quase na íntegra um exercício desse livro. Professores e especialistas exigem a anulação do item e denunciam uma violação do princípio da igualdade.
Que pergunta é esta que deu sorte a uns e azar a outros?
Em causa está uma questão que pedia uma análise crítica a um cartoon do artista iraniano Takjoo, intitulado 'trabalho infantil', que mostra uma criança a costurar num cavalo de madeira. A mesma imagem, publicada em agosto de 2025, já tinha sido utilizada num manual de apoio aos exames de 2026 da Leya, com a legenda 'e se o teu lápis fosse uma ferramenta contra o trabalho forçado?'. O exame não incluía essa legenda, mas solicitava exatamente o mesmo tipo de comentário crítico à imagem.
Carlos Ceia, catedrático da Universidade Nova, não poupa nas palavras. 'É inaceitável o que se passou. Há alunos que tiveram sorte e, com isso, sabiam a resposta, os outros nem por isso', afirmou à Lusa. O professor considera a situação 'perfeitamente absurda e injusta' e acusa os autores do exame de terem falhado e criado 'uma situação iníqua'.
'Não há desculpa para o que aconteceu. Os autores têm de criar perguntas novas e não podem ir buscar umas já existentes', acrescenta Ceia, que vai mais longe e defende a anulação imediata da pergunta. 'Objetivamente houve alunos que tiveram uma sorte que lhes deu uma vantagem', sublinha.
A sorte de quem tem dinheiro para comprar manuais
A polémica toca num ponto sensível do sistema educativo português: a dependência de manuais pagos para ter sucesso nas provas nacionais. Quando uma questão de exame replica o conteúdo de um livro de preparação comercial, quem tem poder de compra para adquirir esses materiais parte logo em vantagem. Os que não podem pagar ficam entregues à sorte, ou melhor, ao azar.
Este é um problema estrutural que afeta sobretudo os alunos das classes populares, aqueles que dependem exclusivamente do que lhes é ensinado na escola pública e dos recursos gratuitos disponíveis. A igualdade de oportunidades no acesso ao ensino superior volta a ser uma miragem quando o sistema de avaliação favorece quem pode investir em manuais de preparação.
Como justifica a Associação de Professores de Português?
Carmo Oliveira, da Associação de Professores de Português (APP), prefere falar de 'coincidência infeliz'. 'Os alunos compram muitos livros e é incontrolável o que se passou. Qualquer professor poderia ter utilizado essa imagem', defendeu.
Num comunicado, a APP confirmou que nomeia especialistas para realizar auditorias às provas, mas fez questão de afastar qualquer suspeita sobre a autora do manual, que integra a direção da associação. Segundo a APP, esta professora 'não é autora de provas de avaliação externa, não é nem nunca foi nomeada como auditora de provas e não forneceu nem teve acesso a informação privilegiada'.
A associação reafirmou ainda o 'caráter totalmente sigiloso de todo o processo', considerando-o 'imprescindível para a elevada qualidade do trabalho realizado em avaliação externa' e para a confiança da comunidade educativa.
Para Carlos Ceia, porém, 'há uma violação do princípio da confiança' em todo o processo. As explicações formais não apagam a realidade dos factos: a pergunta beneficiou concretamente quem treinou com aquele manual.
O que diz o Ministério da Educação?
O Ministério da Educação, Ciência e Inovação limitou-se a uma resposta técnica. Segundo a tutela, a elaboração do item do exame foi 'anterior à publicação do manual de preparação para os exames de 2026 da Leya'. Ou seja, a equipa que elaborou a prova não poderia ter verificado a existência prévia de um item que ainda não tinha sido publicado.
O ministério acrescenta que 'nem a autora, que não faz parte de nenhuma equipa de elaboração de provas, nem a referida editora tiveram qualquer acesso prévio ao conteúdo do exame'. E justifica ainda que 'o cartoon em causa se destacou num concurso internacional, pelo que a sua visibilidade pública é notória'.
A explicação oficial até pode ter alguma lógica burocrática, mas não resolve o problema de fundo. Independentemente das intenções, o resultado prático é o mesmo: alunos que compraram o manual da Leya tinham visto e treinado aquela resposta. Os outros, não.
Um exame pensado para o insucesso
Carlos Ceia vai mais longe na sua crítica e ataca a lógica geral do exame, que considera 'desajustado' e com 'vários erros pedagógicos'. 'Este exame é a base do insucesso da disciplina de português', afirma, porque obriga os professores a 'treinarem os alunos para esta tipologia de exames e este tipo de perguntas'.
Quando o sistema de avaliação reduz o ensino a um treino mecânico para responder a questões padronizadas, a educação perde o seu sentido. Os professores deixam de formar pensamento crítico e passam a preparar alunos para provas que, como se vê agora, até podem ser copiadas de manuais comerciais.
A polémica deste exame é sintoma de um mal maior. Um sistema que avalia estudantes através de provas nacionais padronizadas, onde o sucesso depende cada vez mais da compra de materiais de preparação, não serve a escola pública nem a igualdade de oportunidades. Enquanto a sorte de ter comprado o manual certo decidir notas, a justiça no acesso ao ensino superior continuará a ser uma promessa vazia.
A pergunta do exame de Português deve ser anulada?
Segundo Carlos Ceia, catedrático da Universidade Nova, a pergunta deve ser anulada porque criou uma vantagem objetiva para os alunos que treinaram com o manual da Leya, violando o princípio de igualdade entre todos os examinandos.
Quem elabora as perguntas dos exames nacionais?
As perguntas dos exames nacionais são elaboradas por equipas nomeadas pelo Ministério da Educação. A APP nomeia especialistas para auditar as provas, mas garante que os autores dos manuais não participam na elaboração das questões.
Por que razão a mesma imagem apareceu no manual e no exame?
O Ministério da Educação explica que a elaboração da questão foi anterior à publicação do manual. O cartoon de Takjoo ganhou um concurso internacional, o que explica a sua visibilidade pública. A coincidência resulta da utilização independente da mesma imagem por parte dos autores do exame e do manual.