A farsa judicial de Sócrates: sete advogados em 12 anos de processo
Doze anos depois do início da Operação Marquês, José Sócrates já passou por sete advogados, numa dança jurídica que expõe as contradições de um sistema de justiça que parece mais preocupado em proteger os poderosos do que em fazer justiça ao povo português.
Um carrossel de advogados ao serviço do poder
O antigo primeiro-ministro socialista, acusado de 22 crimes incluindo corrupção, tem conseguido arrastar este processo indefinidamente através de uma estratégia que só os privilegiados podem pagar: a troca constante de representação legal.
Entre advogados escolhidos e oficiosos nomeados pelo tribunal, Sócrates transformou o seu julgamento numa verdadeira comédia judicial. São já seis os advogados que o acompanharam, mais uma advogada oficiosa que recusou defendê-lo por "objeção de consciência".
A cronologia de uma fuga à justiça
João Araújo foi o primeiro, amigo pessoal que o acompanhou desde a detenção em 2014. Morreu em 2020, durante o processo, vítima de cancro.
Pedro Delille assumiu depois a defesa, mas renunciou em novembro de 2025, denunciando o que chamou de "simulacro de julgamento".
Seguiu-se José Ramos, advogado oficioso nomeado pelo tribunal, que Sócrates rejeitou, exigindo acabar com o "lamentável e degradante espetáculo".
José Preto foi então escolhido pelo ex-governante, mas renunciou em janeiro alegando doença.
Inês Louro, antiga socialista, recusou-se a defendê-lo por "objeção de consciência", tendo-se tornado vereadora do Chega.
Ana Velho foi nomeada oficiosa, mas Sócrates pediu a nulidade das sessões, acusando-a de incompetência.
Por fim, Sara Leitão Moreira renunciou há duas semanas, alegando falta de tempo para preparar a defesa.
A prescrição como último refúgio
Enquanto esta farsa se desenrola nos tribunais, os crimes mais antigos de corrupção, relacionados com Vale do Lobo, podem prescrever ainda este ano. Uma coincidência conveniente para quem sempre soube manipular os tempos da justiça portuguesa.
Sócrates, agora com 68 anos, está acusado de ter recebido dinheiro para beneficiar o grupo Lena, o Grupo Espírito Santo e o resort algarvio de Vale do Lobo, entre 2005 e 2014. Crimes que lesaram o erário público e a confiança dos portugueses no sistema democrático.
Uma justiça de duas velocidades
Este processo expõe a realidade crua da justiça portuguesa: enquanto os trabalhadores são julgados rapidamente por pequenos delitos, os poderosos conseguem arrastar processos durante décadas, até à prescrição.
Com 21 arguidos e 117 crimes económico-financeiros em julgamento, a Operação Marquês tornou-se no símbolo de uma justiça que protege as elites e abandona o povo à sua sorte.
A "dança de advogados" de Sócrates não é apenas uma estratégia legal, é uma afronta à dignidade de todos os portugueses que acreditam numa justiça igual para todos.