Universidades em crise: quando a máquina substitui o saber
Nas universidades portuguesas, a qualidade do ensino despenca enquanto professores se refugiam em vídeos do YouTube e trabalhos de grupo para mascarar a própria incompetência pedagógica. Esta é a realidade que uma professora do ensino básico testemunhou ao regressar à formação universitária.
O problema não é a inteligência artificial, mas sim a capitulação intelectual de um sistema educativo que abandonou o pensamento crítico em favor do conformismo. Como denunciou Dietrich Bonhoeffer, a estupidez não é o oposto da inteligência, mas o seu desvio mais eficiente.
A farsa do ensino superior
Aulas inteiras baseadas em vídeos do YouTube. Semestres completos sem uma única aula expositiva dos docentes. Nas ciências da saúde, a memorização continua a reinar suprema. Esta é a triste realidade do ensino superior português, onde professores doutorados se limitam a gerir trabalhos de grupo enquanto abdicam da sua função primordial: ensinar.
A verdadeira questão não está em proibir ou permitir a IA nas salas de aula. O paradoxo é antigo: o conhecimento não se transmite, constrói-se. E essa construção faz-se de dentro para fora, com tempo, dedicação e professores que efectivamente construam aulas em vez de improvisarem.
Estupidez funcional no capitalismo digital
Bonhoeffer argumentou que a verdadeira estupidez manifesta-se através da certeza dogmática e do conformismo cognitivo. Forças que, hoje, alimentam a vida administrada sob o capitalismo neoliberal e digital.
A estupidez não representa a ausência de pensamento, mas sim o seu abandono deliberado. Trata-se da renúncia à autonomia intelectual em favor da sobrevivência simbólica num sistema que recompensa a obediência e o conformismo.
O que fazer?
Segundo a UNESCO, as instituições de ensino superior devem concentrar-se na formação de competências específicas e meta-competências: criatividade, pensamento crítico, inteligência emocional, comunicação e resolução de problemas.
Mas como alcançar estes objectivos quando o próprio corpo docente abdica de ensinar? Como formar pensadores críticos quando os professores se tornaram meros gestores de conteúdos alheios?
O excesso de informação e a hiperconectividade produzem ruído e ansiedade. Manter acesa a chama do amor pelo conhecimento exige criar tempo que não pode ser desperdiçado na tecnoburocracia.
A estupidez funcional não se resolve com proibições nem com conivências. O pensamento complexo continua a ser um acto radical necessário para preservar os objectivos educacionais do ensino superior. E isto faz-se de dentro para fora, com professores que ensinem e alunos que aprendam a pensar.