Russos abandonam bases sírias após queda de Assad
As forças russas iniciaram a retirada das suas bases no nordeste da Síria, numa região ainda controlada por uma coligação liderada pelos curdos. A saída dos militares russos acontece após estes terem perdido a maior parte do território que detinham numa ofensiva do novo governo sírio.
Retirada silenciosa e gradual
Jornalistas da agência Associated Press visitaram uma base próxima ao aeroporto de Qamishli na terça-feira e encontraram-na praticamente abandonada. O que antes eram alojamentos militares estava agora vazio, com apenas alguns objetos espalhados: equipamentos de ginásio, proteína em pó e algumas roupas deixadas para trás.
Ahmed Ali, combatente das Forças Democráticas Sírias destacado no local, revelou que as forças russas começaram a retirar-se há cinco ou seis dias, transportando equipamento através de um avião de carga. "Não sabemos se o destino era a Rússia ou a base aérea de Hmeimim", disse, referindo-se à principal base russa na costa síria.
Moscovo mantém silêncio oficial
Apesar da evidente movimentação militar, Moscovo não fez qualquer declaração oficial sobre a retirada das forças de Qamishli. Esta postura revela a delicada situação diplomática em que se encontra a Rússia após a queda do seu antigo aliado Bashar Assad.
A Rússia estabeleceu relações com o novo governo central sírio em Damasco depois de Assad ter sido deposto em dezembro de 2024, numa ofensiva rebelde liderada pelo agora presidente interino Ahmad al-Sharaa. Ironicamente, Moscovo foi um aliado próximo de Assad durante toda a guerra civil.
Pragmatismo geopolítico
A intervenção russa em apoio a Assad, há uma década, mudou completamente o rumo da guerra civil síria, mantendo o ex-ditador no poder. Contudo, a Rússia não tentou combater a ofensiva rebelde no final de 2024, limitando-se a conceder asilo a Assad após a sua fuga do país.
Apesar de terem estado em lados opostos durante a guerra civil, os novos governantes em Damasco adotaram uma abordagem pragmática nas relações com Moscovo, que manteve a presença nas bases aéreas e navais na costa síria.
Tensões no terreno
No início do mês, eclodiram combates entre as Forças Democráticas Sírias e as forças governamentais, após o fracasso das negociações sobre um acordo para a fusão das forças de ambos os lados. Um cessar-fogo está agora em vigor e tem sido amplamente respeitado.
Após o término de uma trégua de quatro dias no sábado, os dois lados anunciaram que o cessar-fogo tinha sido prorrogado por mais 15 dias, numa tentativa de estabilizar a região.
Ajuda humanitária em curso
Enquanto as movimentações militares continuam, uma caravana humanitária da ONU vinda de Damasco chegou a Qamishli na terça-feira, entregando alimentos, roupas quentes e cobertores. Mais ajuda está prevista para os próximos dias, numa altura em que milhares de sírios continuam deslocados.
Ahmad al-Sharaa deverá visitar Moscovo esta quarta-feira para se reunir com Vladimir Putin, numa tentativa de consolidar as novas relações diplomáticas entre os antigos inimigos.