Rússia inicia retirada estratégica do nordeste da Síria
As forças russas começaram discretamente a abandonar as suas posições no nordeste da Síria, numa manobra que revela as mudanças geopolíticas profundas após a queda do regime de Bashar Assad. Esta retirada, iniciada há poucos dias, marca o fim de uma década de presença militar russa numa região estratégica do país.
Abandono silencioso das bases militares
Jornalistas que visitaram uma base próxima ao aeroporto de Qamishli encontraram instalações praticamente vazias, com apenas alguns vestígios da presença militar russa: equipamentos de ginástica abandonados, proteína em pó e roupas espalhadas pelo chão. O cenário desolador contrasta com a importância estratégica que esta região teve para Moscovo durante anos.
Ahmed Ali, combatente das Forças Democráticas Sírias (SDF) que agora vigia o local, confirmou que "as forças russas começaram a retirar-se há cinco ou seis dias, transportando equipamento através de um avião de carga". O destino permanece incerto: poderá ser a Rússia ou a base principal de Hmeimim, na costa síria.
Pragmatismo político após décadas de conflito
Esta retirada ocorre num contexto de profunda transformação política. O novo governo sírio, liderado por Ahmad al-Sharaa, adoptou uma postura pragmática face a Moscovo, apesar de terem estado em lados opostos durante a guerra civil. A visita prevista de al-Sharaa a Putin esta quarta-feira demonstra como as alianças se reconfiguram quando os interesses geopolíticos estão em jogo.
A intervenção russa, iniciada há uma década para salvar Assad, mudou completamente o rumo da guerra civil síria. Agora, com Assad no exílio e um novo poder estabelecido, Moscovo adapta-se à nova realidade sem grandes sobressaltos.
Tensões persistem no terreno
Enquanto isso, no nordeste do país, as tensões entre as SDF e as forças governamentais sírias mantêm-se elevadas. Após combates no início do mês, foi declarado um cessar-fogo que foi recentemente prorrogado por mais 15 dias.
O Ministério da Defesa sírio justificou esta prorrogação com a necessidade de apoiar operações norte-americanas para transferir militantes do Estado Islâmico detidos em prisões locais para centros de detenção no Iraque.
Paralelamente, as Nações Unidas continuam o seu trabalho humanitário, distribuindo alimentos, cobertores e outros suprimentos essenciais às populações deslocadas, numa região que continua a sofrer as consequências de mais de uma década de conflito.
Esta retirada russa simboliza não apenas o fim de uma era, mas também a complexidade das relações internacionais numa região onde os interesses geopolíticos se sobrepõem frequentemente às necessidades das populações locais.