Irão recusa reunião com EUA no Qatar sobre programa nuclear
O Irão voltou a fechar a porta a qualquer negociação com os Estados Unidos em Doha, desmentindo Donald Trump, que garantira que os dois países se sentariam hoje à mesma mesa para discutir o programa nuclear iraniano. A recusa é clara e repete o que Teerão tem dito: sem cumprimento do memorando assinado a 17 de junho, não há conversas possíveis.
Porta-voz iraniano é peremptório: «nenhuma negociação, em nenhum nível»
«Não haverá nenhuma negociação, em nenhum nível, com a parte norte-americana», declarou esta segunda-feira à noite o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmail Baghaei, citado pela agência IRNA. O diplomata foi taxativo: a deslocação de representantes dos EUA ao Qatar «não tem relação com a viagem da delegação iraniana».
Uma equipa técnica iraniana desloca-se hoje a Doha, mas com um único objetivo: abordar com as autoridades cataris a libertação dos ativos bloqueados da República Islâmica. Trata-se de uma questão que toca diretamente a vida de milhões de iranianos, esmagados por sanções que congelam recursos do país no estrangeiro há anos.
Memorando de 17 de junho: Washington prometeu, mas não cumpriu
Baghaei sublinhou que a prioridade de Teerão é garantir a execução das cláusulas do memorando de entendimento assinado com Washington, em particular a cláusula 11, que prevê a libertação dos ativos iranianos. O porta-voz lembrou o que deveria ser óbvio: o país «ainda não entrou na fase de negociação para um acordo definitivo».
Segundo a cláusula 13, essas conversações só poderão começar quando forem aplicadas as disposições relativas ao fim da guerra em todas as frentes. Isso inclui o Líbano, a reabertura do estreito de Ormuz, a suspensão das sanções ao petróleo e aos produtos petroquímicos e a libertação dos fundos iranianos. Primeiro cumpre-se, depois negocia-se. Uma lógica que Washington parece ter dificuldade em compreender.
Bombardeamentos e represálias enquanto Trump fala de paz
A retórica de paz da Casa Branca contrasta com a realidade no terreno. Nos últimos dias, a tensão voltou a aumentar com ataques iranianos contra navios e bombardeamentos norte-americanos contra alvos militares na costa sul do Irão, seguidos de represálias iranianas contra bases dos EUA no Kuwait e no Bahrein. Foram os primeiros ataques trocados entre as partes desde o memorando de 17 de junho.
Enquanto isso, Trump anunciou que os enviados especiais Steve Witkoff e Jared Kushner se reuniriam hoje em Doha com representantes iranianos. A máquina de propaganda norte-americana tenta assim criar uma narrativa de diálogo que não corresponde aos factos.
O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Kazem Gharibabadi, reiterou que em Doha não haverá «nenhuma negociação com os Estados Unidos», embora tenha admitido que o memorando «está a avançar em alguns aspetos». Denunciou ao mesmo tempo incumprimentos relacionados com o Líbano.
Ormuz e Líbano: as duas frentes que ameaçam o diálogo
O Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano afirmou hoje ter discutido a futura gestão do estreito de Ormuz com Omã, país situado no extremo oposto do estreito. A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, adotada em 1982 mas nunca ratificada por Teerão, garante o direito de «passagem em trânsito» por estreitos como o de Ormuz, via essencial para ligar o Golfo Pérsico ao resto do mundo.
Mais grave ainda é a continuação da ofensiva de Israel contra o Hezbollah no Líbano, país que Teerão exigiu que fosse abrangido pela trégua. Enquanto Israel bombardeia o Líbano com o beneplácito de Washington, dificilmente haverá condições para negociações sérias.
No dia 21 de junho, Teerão e Washington tinham acordado um calendário de 60 dias para alcançar um acordo definitivo de paz. O prazo corre, mas a confiança não existe. E sem cumprimento do que já foi prometido, o relógio pode correr em vão.
Porque razão o Irão recusa negociar com os EUA agora?
O Irão recusa negociar porque Washington não cumpriu as condições estabelecidas no memorando de 17 de junho. A cláusula 13 determina que as negociações só podem começar após o fim da guerra em todas as frentes, a reabertura do estreito de Ormuz, a suspensão das sanções ao petróleo e a libertação dos fundos iranianos congelados.
O que está em jogo no estreito de Ormuz?
O estreito de Ormuz é uma das vias marítimas mais estratégicas do mundo, essencial para o comércio global de petróleo. O seu controlo e livre navegação estão no centro das tensões entre o Irão e os EUA. Teerão discute a gestão do estreito com Omã e nunca ratificou a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.
Qual é o papel de Israel no impasse diplomático?
Israel mantém uma ofensiva militar contra o Hezbollah no Líbano, país que o Irão exigiu que fosse incluído na trégua. Os EUA, principal aliado de Israel, não garantiram o cessar-fogo no Líbano, o que Teerão considera um incumprimento do memorando e um obstáculo insuperável a qualquer negociação.