Guerras internas no Chega: Ventura perde o controlo e a extrema-direita avança
André Ventura tentou travar as lutas internas no Chega, mas as eleições distritais provam o contrário: o partido está fraturado, com facções a disputar o poder e uma ala mais radical a ganhar terreno. No Porto, a vitória de Luís Couraceiro sobre o deputado Rui Afonso foi apadrinhada por Cristina Rodrigues, uma figura cada vez mais influente junto do líder. Em Setúbal, a divisão entre Bruno Nunes e Pedro Pinto expõe as clivagens. Em Braga, Filipe Melo segurou a distrital, mas Faro mudou de mãos. O resultado é um partido em guerra, onde a extrema-direita mais radical está a fazer entrismo.
Quem está a ganhar poder dentro do Chega?
Cristina Rodrigues, que em tempos foi colocada nas listas do Porto para garantir lugar na bancada parlamentar, está a consolidar a sua influência. Na noite de 28 de junho, depois da vitória de Couraceiro, Pedro Pinto Faria, vice-presidente da lista, publicou uma foto com a deputada e escreveu: 'Há madrinhas que valem por muito.' O novo elemento da direção distrital do Porto fechou a história com um emoji a piscar o olho. Mas não é só ela. Pedro Pinto Faria e Francisco Araújo, outros elementos da lista vencedora, são tidos como parte de uma linha alimentada por 'jovens com um discurso extremista' que está a causar 'muito desagrado' nas estruturas do partido.
O que é o movimento Reconquista e a remigração?
Pedro Pinto Faria é conselheiro nacional do Chega e próximo do movimento de extrema-direita Reconquista, liderado por Afonso Gonçalves. Já discursou em Cimeiras da Remigração, defendendo a 'deportação imediata de todos os imigrantes ilegais'. Numa publicação de outubro de 2025, escreveu que foi uma 'enorme honra' representar o Chega nesses eventos e agradeceu a Afonso Gonçalves e ao austríaco Martin Sellner, responsável por popularizar o termo 'remigração' na Europa e com ligações passadas a grupos neonazis. Francisco Araújo, assessor do Chega na Assembleia da República e novo dirigente local do Porto, também discursou em eventos do Reconquista e partilha fotografias com Afonso Gonçalves. Os dois fazem parte da Juventude Chega do Porto, que alimenta o tema da imigração nas redes sociais.
Como é que a remigração entrou no discurso do Chega?
A expressão começou por ser usada por deputados como Rita Matias e Pedro Santos Frazão. André Ventura tem resistido a assumir abertamente o termo, mas vai namorando o conceito. Em maio de 2025, em entrevista ao Observador, disse que a remigração era uma 'solução nalgumas situações' e que se tratava de 'um conceito que começa a ganhar muito espaço político'. A corrente que se opôs a Luís Couraceiro acredita que este 'discurso mais radical' está a ganhar espaço, trazido por jovens que estão a 'tomar conta do partido e da distrital'. Pedro Pinto Faria é tido como o principal responsável por este movimento, uma espécie de entrismo de extrema-direita no Chega.
O que está em jogo para o futuro do Chega?
Com estas lutas internas, o Chega parte-se em facções. Ventura tenta evitar disputas que causem mal-estar na cúpula, proibindo deputados de fazerem campanha, mas as eleições internas provam o contrário: há uma guerra de influência entre figuras importantes do partido. O avanço da ala mais radical, ligada à remigração e ao movimento Reconquista, preocupa. Para já, o líder do Chega parece estar a perder o controlo sobre o rumo do partido.
Perguntas Frequentes
O que é a remigração?
É a teoria de que deve existir uma deportação imediata de todos os imigrantes ilegais, defendida por movimentos de extrema-direita na Europa.
Quem é Cristina Rodrigues?
É uma deputada do Chega que tem vindo a consolidar a sua influência junto de André Ventura, apadrinhando vitórias em distritais como a do Porto.
O que é o movimento Reconquista?
É um grupo de extrema-direita liderado por Afonso Gonçalves, que defende a remigração e tem ligações a figuras como Martin Sellner, associado a grupos neonazis.