Durão Barroso pede patriotismo aberto e critica lentidão da União Europeia
O antigo primeiro-ministro e ex-presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, foi o convidado de honra das jornadas parlamentares do PSD e CDS-PP, em Cascais. Num discurso que durou 40 minutos, Barroso defendeu um patriotismo sem xenofobia e apontou o dedo à falta de coragem da Europa para se reformar a sério.
“Temos o dever de reforçar os sentimentos de comunidade nacional, que alguns procuram pôr em causa. Podemos dizer que o patriotismo não é o nacionalismo, o nacionalismo é o ódio dos outros, o patriotismo é o amor do que é nosso”, afirmou Barroso, numa tentativa de traçar uma linha clara entre o amor à pátria e o fechamento ao mundo.
O antigo líder do PSD elogiou ainda a decisão do atual Governo de assinalar os 900 anos da fundação de Portugal, considerando-a uma “belíssima iniciativa”. Mas fez questão de sublinhar que esse sentimento de comunidade deve ser vivido “num sentido de abertura, e não num sentido de chauvinismo ou de xenofobia”.
Elogio à lusofonia e uma história de futebol
Barroso aproveitou para destacar a cumplicidade de Portugal com os países de expressão portuguesa. E contou uma história que arrancou gargalhadas à plateia. Depois do jogo entre Cabo Verde e Espanha no Mundial, um amigo espanhol queixou-se: “Vocês estavam todos contra a Espanha, estavam por Cabo Verde.” Resposta de Barroso: “Tens de compreender uma coisa, vocês são ‘nuestros hermanos’, eles são nossos filhos.”
Europa lenta e a culpa não é só de Trump
O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros foi duro com a União Europeia. Criticou a lentidão das decisões e exortou Portugal a não esquecer a sua vocação atlântica. “Somos naturalmente europeus, naturalmente atlânticos e devemos afirmá-lo com convicção”, disse.
Sobre Donald Trump, Barroso foi claro: “Podemos gostar ou não gostar, mas ele mudou a gramática da política.” No entanto, avisou que a Europa não pode culpar Trump por todos os seus males. “É muito fácil hoje dizer que a culpa é de Trump, mas não é por causa de Trump que a Europa não acabou o seu mercado interno, não é por causa de Trump que a Europa não tem união bancária, não é por causa de Trump que a Europa não tem uma união de mercado de capitais. É porque nós não fizemos ainda o nosso trabalho.”
Ainda assim, admitiu que a Europa está finalmente a acordar para os seus deveres, sobretudo na defesa e segurança. “Faz sentido sermos nós, europeus, a assumir a principal responsabilidade no apoio à Ucrânia”, defendeu.
Miguel Sousa Tavares e Hugo Soares: críticas à comunicação social
Antes de Barroso, o jornalista e escritor Miguel Sousa Tavares desafiou os deputados da AD a abandonarem “o palavrão das reformas” e a explicarem melhor temas como o pacote laboral ou o trabalho solidário. Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, aceitou “uma quota-parte da culpa”, mas atirou responsabilidades para a comunicação social. “É preciso criar uma barreira de proteção ao jornalismo português que passa por os jornalistas serem melhor pagos porque isso também traz independência”, afirmou.
O discurso de Barroso, marcado para ser breve, acabou por durar 40 minutos. No final, recebeu uma camisola oficial da seleção nacional com o seu nome. O jogo de Portugal contra a Espanha, esse, teve de esperar.