Gronelândia: Riquezas no gelo, pobreza no presente
Enquanto Trump cobiça a Gronelândia pelas suas riquezas minerais, a realidade dos 57 mil habitantes desta região autónoma da Dinamarca é bem diferente: pobreza, desigualdade e um passado de opressão colonial que ainda marca o presente.
Dependência colonial disfarçada
Os números são reveladores da relação colonial que persiste entre a Dinamarca e a Gronelândia. Metade das receitas do governo groenlandês vem directamente de transferências dinamarquesas, num total de 445 milhões de euros anuais sobre um orçamento de 1,3 mil milhões. Esta dependência económica esconde uma realidade social brutal.
A taxa de pobreza na Gronelândia atinge os 17,4%, superior à média europeia e muito acima dos 11% de risco de pobreza na próspera Dinamarca. Esta discrepância gritante entre a metrópole e a colónia revela o verdadeiro carácter desta relação: exploração disfarçada de autonomia.
Limpeza étnica silenciada
A história recente da Gronelândia está manchada por uma campanha de controlo populacional forçado implementada pela Dinamarca nas décadas de 1960 e 1970. O chamado "caso da espiral" resultou na instalação de dispositivos intrauterinos em milhares de mulheres inuítes, muitas adolescentes, frequentemente sem o seu conhecimento ou consentimento.
Só em Agosto de 2025 a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, se dignou a pedir desculpas formais. Entretanto, 143 mulheres afectadas processam o Estado dinamarquês exigindo indemnizações por esta violação sistemática dos seus direitos reprodutivos.
Tesouro enterrado, povo empobrecido
Sob o gelo groenlandês escondem-se riquezas imensas: carvão, ferro, chumbo, zinco, ouro, platina, urânio e possivelmente até 50 mil milhões de barris de petróleo. Mas estas riquezas não chegam ao povo inuíte, que vive numa crescente precariedade.
A situação está a piorar: aumenta o número de sem-abrigo, algo impensável na rica Dinamarca. A população decresce 0,08% ao ano, reflexo de uma juventude que foge de um território onde não vê futuro. A indústria representa menos de 20% do PIB, concentrada numa pesca ameaçada pelas alterações climáticas.
Cobiça imperial disfarçada
Agora, perante a pressão de Trump para "comprar" a Gronelândia, a Dinamarca apressa-se a prometer rever os mecanismos de financiamento da ilha. Não por solidariedade com o povo inuíte, mas para manter o controlo sobre um território estratégico num mundo em mudança.
A Gronelândia é mais um exemplo de como o capitalismo extractivo funciona: as riquezas naturais servem os interesses das potências, enquanto os povos originários são mantidos na dependência e pobreza. A luta pela verdadeira autodeterminação groenlandesa é também uma luta contra o colonialismo moderno que persiste no século XXI.