Fingiu cancro durante anos e roubou 214 mil euros ao Estado: a enfermeira que enganou toda a gente
Durante três anos, Amanda Reid convenceu a família, os colegas e os médicos de que estava a morrer de leucemia. Rapava a cabeça todos os dias, tomava medicamentos para emagrecer e falsificava documentos clínicos. No fim, a mentira valeu-lhe 214 mil euros em pensões fraudulentas, uma pena de dois anos de prisão e a expulsão definitiva da profissão de enfermeira.
O caso, que agora foi parar ao comité disciplinar da enfermagem escocesa, é um retrato perfeito de como o sistema de segurança social pode ser enganado por quem conhece as suas fragilidades por dentro. Amanda não era uma desconhecida: era enfermeira pediátrica, uma profissional de saúde que sabia exatamente o que dizer e como dizer para que ninguém desconfiasse.
Uma farsa montada ao pormenor
Para sustentar a história de que sofria de um cancro no sangue, Amanda Reid não poupou esforços. Rapava a cabeça diariamente, usava medicamentos para perder peso e chegou a apresentar 16 documentos médicos falsificados, usando o nome e a imagem do Spire Hospital Edinburgh, para convencer o médico de família de que estava gravemente doente.
A mentira não ficou por aí. A enfermeira obteve ilegalmente medicamentos sujeitos a controlo pelo NHS e apresentou à Scottish Pensions Authority um pedido de pensão por doença terminal. Entre abril de 2021 e agosto de 2024, recebeu 185.442,95 libras, cerca de 214 mil euros, que o Estado escocês pagou sem grandes perguntas.
O que se passava na cabeça de Amanda?
Durante o processo, Amanda Reid disse sofrer de síndrome de Munchausen, uma perturbação em que a pessoa finge ou provoca sintomas de doença em si própria, e garantiu que não agiu por dinheiro. Mas o relatório elaborado antes da sentença não conseguiu confirmar o diagnóstico de forma independente.
E há um pormenor que incomoda: parte do dinheiro obtido de forma fraudulenta foi parar a uma viagem ao Dubai. Não é bem o comportamento de quem age apenas por doença mental, dizem os responsáveis pelo processo.
Expulsa da profissão sem direito a defesa
No processo disciplinar, Amanda não apresentou qualquer alegação em sua defesa. O painel, presidido por John Millar, concluiu que não havia qualquer prova de compreensão ou arrependimento por parte da enfermeira.
No acórdão, o Nursing and Midwifery Council (NMC) descreveu a conduta como sustentada, deliberada e premeditada, envolvendo fraude criminal e ganho financeiro. A desonestidade não se limitou à fraude da pensão: envolveu vários serviços de saúde, agências e familiares ao longo de três anos.
Embora não tenha encontrado provas de que Amanda tenha colocado diretamente algum doente em risco, o organismo considerou que o comportamento demonstrava problemas de atitude profundos e que, caso se repetisse num contexto clínico, poderia colocar doentes em risco no futuro.
Uma lição sobre o sistema e a confiança
Este caso levanta questões incómodas sobre a confiança que depositamos nos profissionais de saúde e sobre a facilidade com que o sistema de pensões pode ser enganado. Amanda Reid conhecia as regras, sabia como funcionavam os formulários e usou esse conhecimento para roubar o dinheiro que devia servir para proteger quem está verdadeiramente doente.
Foi condenada a dois anos de prisão pelo tribunal de Livingston em setembro de 2025, depois de se declarar culpada de defraudar a Scottish Pensions Authority. Agora, perdeu também a licença para exercer enfermagem. Mas a pergunta que fica no ar é outra: quantos casos como este passam despercebidos todos os dias?
Com informação do The Independent e da SAPO.