Egito e Irão empatam num Pride Match que expõe contradições
Num dia em que Seattle celebrava a Marcha do Orgulho Gay, duas seleções de países que criminalizam a homossexualidade entraram em campo para um empate a um golo. O VAR invalidou o golo iraniano nos descontos, salvando o Egito, que enfrenta a Austrália nos oitavos. O Irão, com três pontos, continua a sonhar com o apuramento. Mas a verdadeira tensão deste jogo jogou-se fora do relvado.
Orgulho na rua, homofobia nas leis: o paradoxo de Seattle
O Egito-Irão começou muito antes de Szymon Marciniak apitar para o início do jogo. A cidade de Seattle tinha designado aquele encontro como Pride Match, uma homenagem à Marcha do Orgulho Gay que decorria nas ruas da cidade no mesmo dia. O problema é que o sorteio tratou de colocar em campo duas seleções de países onde ser gay é crime. No Egito, a homossexualidade é perseguida com base em leis de debochamento. No Irão, a pena pode chegar à morte. Enquanto milhares de pessoas marchavam pela liberdade e pela dignidade LGBTQIA+, dois Estados que negam essa mesma dignidade jogavam futebol sob a etiqueta de um evento feito para celebrar o oposto do que representam.
É o tipo de contradição que o futebol raramente questiona. Os organizadores do Mundial colocaram a etiqueta sem pensar nas consequências. O sorteio foi aleatório, dirão. Mas a realidade é que o espetáculo seguiu adiante como se nada fosse, com as câmaras a ignorarem o que se passava lá fora e os comentadores a falarem só de tática e de golos. Mais uma vez, o futebol mostra que consegue ser surdo quando convém.
Como correu o jogo entre Egito e Irão?
Dentro do relvado do Lumen Field, o jogo criou uma tensão própria que fez esquecer, por momentos, a polémica exterior. O Egito adiantou-se logo aos 5 minutos, com Mahmoud Saber a empurrar a bola para a rede num lance de puro caos, daqueles que se resolvem mais por confusão do que por qualidade. O Irão respondeu com um penálti aos 10 minutos, mas o capitão Mehdi Taremi assumiu a responsabilidade e atirou para as mãos de Mostafa Shobeir. Quatro minutos depois, Ramin Rezaeian restabeleceu a igualdade com um lance de insistência pura. A partir daí, o jogo arrefeceu à medida que o intervalo se aproximava, como se ambas as equipas precisassem de respirar antes de decidirem o que queriam ser naquela noite.
A segunda parte começou com o Egito a tentar resolver o assunto de imediato. Logo aos 47 minutos, Salah encontrou Trezeguet na pequena área, mas Hardani, o guarda-redes que entrou ao intervalo em substituição de Beiranvand, respondeu com uma defesa providencial. A ameaça egípcia era real, mas o ritmo da partida não acompanhava a urgência dos resultados paralelos: a Bélgica marcou o segundo e depois o terceiro golo em Vancouver, roubando ao Egito a liderança do grupo e mudando as contas da fase seguinte. Aos 57 minutos, Hossam Hassan poupou Salah para o mata-mata. Uma decisão que dizia tudo sobre o que estava verdadeiramente em jogo naquela noite.
O VAR decide e muda o destino de duas seleções
O Irão tentou aproveitar o espaço deixado pelas substituições egípcias, que sugeriam um recuo no terreno. Aos 75 minutos, após uma má saída de Shobeir, os iranianos chegaram à área com perigo, mas sem conseguir rematar com eficácia. O jogo ia perdendo fio à medida que os erros de passe se multiplicavam de ambos os lados. Marmoush, que entrou ao intervalo, foi o elemento mais incisivo do Egito na segunda parte. Aos 67 minutos, infiltrou-se entre três defensores, mas o remate saiu pela linha de fundo. Aos 83 minutos, Marwan Attia tentou de fora da área, sem sucesso.
Para o fim, estava guardado o melhor. Aos 90+4 minutos, surgiu um pontapé com a vontade de quem quer dar um golpe de teatro. O Egito queria terminar o grupo G em primeiro lugar, mas nunca conseguiu materializar o seu domínio. Como o tempo, a crença do Irão cresceu. Cresceu ao ponto de Shojae Khalilzadeh fazer a bola entrar na baliza de Mostafa Shobeir e gelar toda a gente no Lumen Field, fora os que torciam pelo Irão, que saltaram de alegria com o apuramento direto. Quando a bola já se encontrava no centro do relvado e tudo parecia sorrir aos iranianos, a videoarbitragem detetou uma posição irregular no lance do golo. Voltou tudo ao cenário anterior. A festa iraniana tornou-se na festa egípcia. Num instante, a tecnologia decidiu quem passa e quem sonha.
Este emparelhamento só é possível porque o VAR tratou de esclarecer um lance irregular. Sendo a Austrália um adversário teoricamente mais acessível, a videoarbitragem terá dedo na campanha egípcia ou australiana. Uma destas seleções, que têm encontro marcado nos oitavos de final, garanta presença nas 16 melhores equipas da prova, contrariando o seu próprio ranking FIFA: a Austrália está no 27.º lugar e o Egito no 29.º.
Ramin Rezaeian: o veterano que sonha com o apuramento
Relançou o Irão na partida e, simultaneamente, na corrida à próxima fase. Ramin Rezaeian tinha marcado e assistido diante da Nova Zelândia. Depois de um início mais forte do Egito e atribulado para o Irão, que viu Taremi falhar uma grande penalidade, o veterano de 36 anos voltou a ser a esperança dos iranianos e aos 14 minutos restabeleceu uma igualdade que nunca mais se alterou. No final do jogo, estava em lágrimas. Aquelas de quem sonha com o apuramento com o receio de não o conseguir. Ao arranque para os últimos jogos da terceira jornada da fase de grupos, o Irão é o sexto melhor terceiro classificado e terá de terminar nos oito melhores para conseguir passar à fase a eliminar, com algumas equipas ainda por jogar.
Classificações finais do grupo G
Com os resultados finais, a Nova Zelândia está fora do Mundial, depois de fazer apenas um ponto. A Bélgica passou em primeiro lugar, com cinco pontos, os mesmos que o Egito, que passou em segundo devido à menor diferença entre golos marcados e sofridos. O Irão, com três pontos, continua a sonhar com o apuramento como um dos melhores terceiros classificados.
Por que razão o Pride Match gerou tanta polémica?
Porque a cidade de Seattle designou o jogo como Pride Match antes de saber quem ia jogar. Quando o sorteio colocou Egito e Irão, dois países que criminalizam a homossexualidade, a coincidência expôs a contradição entre os valores celebrados nas ruas e as leis dos países em campo.
O VAR invalidou o golo do Irão porquê?
A videoarbitragem detetou uma posição irregular de Shojae Khalilzadeh no lance do golo marcado nos descontos. Sem o VAR, o Irão teria vencido e apurado-se diretamente. Com a invalidação, o empate mantém o Egito em segundo lugar e o Irão dependente de outros resultados.
Quem joga o Egito nos oitavos de final?
O Egito enfrenta a Austrália nos oitavos de final do Mundial. Uma das duas seleções garantirá presença nas quartas de final, apesar de ambas estarem fora do top 25 do ranking FIFA.