CDS de Nuno Melo quer ser «solidário, competente e autónomo» na AD
O CDS-PP reúne-se este sábado em Albergaria-a-Velha para a rentrée política, e o líder Nuno Melo vai tentar responder a quem o acusa de ter diluído o partido na coligação com o PSD. A mensagem é clara: os centristas querem ser «solidários na coligação, competentes no Governo e autónomos nos temas que o acordo da AD prevê».
O antigo bastião centrista, no distrito de Aveiro, serve de palco para uma reflexão sobre o papel do partido num momento em que as sondagens apontam para uma possível recuperação eleitoral. Estudos citados pelo líder dão conta de que o CDS poderia eleger «sete ou oito deputados» se voltasse a ir a votos sozinho, um cenário que contrasta com a atual presença parlamentar conquistada através da aliança com o PSD.
Um partido «institucionalista» num clima de «selva» política
Nuno Melo não esconde a preocupação com o tom do debate público em Portugal. O líder centrista afirma que o CDS é «um partido institucionalista, que pretende melhorar o regime e recusa uma tendência perigosa e preocupante nas relações entre os principais agentes políticos».
«Mantém linhas, que são de princípio, no comportamento com os outros partidos, no debate público, no contraste de ideias, sempre normal em democracia, e na defesa da verdade», sublinha, prometendo que o partido recusará sempre «um certo clima da selva para o qual o radicalismo mais ou menos recente tem trazido o debate público».
Autonomia no Parlamento e apoio crítico ao Governo
A autonomia do grupo parlamentar liderado por Paulo Núncio, que já apresentou propostas diferentes do PSD em temas como o uso de bandeiras em edifícios públicos, vai servir de exemplo para anunciar medidas na área da Educação. O partido promete manter o apoio ao Governo que integra, mas com «avaliação crítica» à moção de censura do Chega e às posições da oposição.
Um balanço positivo, mas para quem?
Para Nuno Melo, que também é ministro da Defesa Nacional desde 2024, o Governo merece «um balanço positivo nos planos económico, financeiro e social», incluindo a área das migrações. O líder centrista defende que «Portugal está muito melhor» graças ao executivo, apontando o crescimento da economia, a redução da dívida pública e a obtenção de dois superávites.
«Fomos um dos poucos países da União Europeia que o conseguiram», realçou. Uma visão que contrasta com a realidade vivida por muitos portugueses, que continuam a sentir na pele os efeitos da inflação e dos baixos salários, apesar dos números macroeconómicos favoráveis.
O «renascimento» do CDS e a memória de Narana Coissoró
A nível interno, Nuno Melo vai centrar-se no que considera ter sido o renascimento do partido, «quando grande parte dos comentadores antecipava que o CDS desapareceria». O líder destaca ainda a «reestruturação financeira de um partido que tinha perdido a representação parlamentar e tinha constrangimentos assinaláveis».
A rentrée, marcada para as 17h00 na Praça Dona Teresa, contará com a evocação do antigo líder parlamentar Narana Coissoró, falecido há poucas semanas. Estão também previstas intervenções da presidente da Juventude Popular, Catarina Marinho, que abordará as preocupações das novas gerações e o processo de revisão constitucional, e do presidente da Câmara de Albergaria-a-Velha, Carlos Coelho, anfitrião do evento e um dos protagonistas dos bons resultados do CDS nas autárquicas de 2025.
O que está em jogo para o CDS?
A questão que se coloca é se o CDS conseguirá manter a sua identidade dentro da coligação ou se continuará a ser visto como uma força política subalterna ao PSD. A estratégia de Nuno Melo passa por afirmar a relevância do partido, tanto no Governo como na sociedade, mas a verdade é que a base eleitoral centrista continua a ser uma incógnita num cenário de eventual rutura da AD.
Para já, o líder aposta na narrativa de um partido competente e autónomo, capaz de melhorar o regime sem ceder ao radicalismo. Resta saber se os portugueses, sobretudo os mais afetados pelas políticas de austeridade que marcaram a última década, acreditam nessa promessa.